quarta-feira, 16 de maio de 2012


 Cinema no Consultório
 
Caros colegas, amigos, clientes,

Agradecemos a presença de todos em nosso primeiro encontro de 2012 de "cinema no consultório", com proposta educacional, terapêutica e artística, através da divulgação da obra grandiosa de Carl. G. Jung, pesquisando os arquétipos, imagens, símbolos dentro da narrativa e deixando fluir nossa imaginação criadora.

Agradecemos as reflexões compartilhadas que enriquecem e ampliam a interpretação.

Esperamos contar com vocês no próximo filme em 06/06/2012, A Pele que Habito do diretor Almodóvar.

Abraços fraternos,

Verusa e Márcia.




Meia Noite em Paris

por: Verusa Silveira 


Diretor e Roteirista: Woody Allen
Elenco:
Gil Pender: Owen Wilson
Inês: Raquel McAdams
Adriana: Marion Cotillard
Ernest Haminway: Corey Stoll
Gertrude Stein: Kathy Bates
Trilha Sonora: Stephane Wrembel


Escrito e dirigido por Woody Allen; premiado no Oscar 2012 como melhor roteiro original.
O diretor mostra uma grande paixão pela “Cidade Luz” como é conhecida Paris, iniciando a filmagem com cenas belíssimas da cidade em seu cotidiano e na chuva, trazendo imagens de apreciação estética, sensibilidade e romantismo, envolvendo a todos num clima de beleza.
Paris histórica, dos escritores e artistas, com charme de cidade antiga e ao mesmo tempo cosmopolita, parece um cartão-postal.
Atravessamos lindos jardins de Luxemburgo e de Tuilleries para chegar ao Museu do Louvre, mistura do antigo com o novo através da pirâmide moderna de vidro e símbolo de equilíbrio no Egito.
 A bela paisagem nas margens arborizadas do rio Sena que marca a cidade nos convida a caminhar, a flanar pelo cais a sonhar e navegar no bateau mouche, junto aos outros turistas até chegar à catedral de Notre Dame e se extasiar diante dos vitrais coloridos em forma de mandalas que remetem ao sagrado.
O bairro de Montmartre, tradição de pintores a fazer retratos, boêmios, poetas, curtidores varando à noite. O Moulin Rouge com suas dançarinas cheio de erotismo e prazer dançando o can-can; subindo as escadarias do Sacré Coeur, o mirante da cidade vista de cima.



Detalhes arquitetônicos e motivos decorativos, estátuas, rostos esculpidos, anjos de bronze e de pedra que protegem a cidade, iluminados por lampiões à noite, de luz amarelo-ouro.
No frio, entrar num bistrô e beber uma taça de vinho e sair caminhando aquecido, estimulando as fantasias e, quem sabe... Subir à Torre Eiffel ou dar um passeio na Praça Des Vosges, lugar nobre e conhecer a casa de Vitor Hugo onde ele escreveu “Os Miseráveis”.
Andar pela Avenida Champs Ellysées cercada de grandes magazines, cafés, restaurantes, cinemas, até chegar ao Arco do Triunfo, observando o movimento cotidiano, pedir um café e deixar o tempo passar...
Visitar o teatro Ópera antigo patrimônio histórico, e assistir uma peça no atual Ópera onde se celebra grandes eventos culturais, fazendo parte da vida contemporânea, herança artística e literária da antiguidade.
O antigo e o novo se misturam nessa cidade histórica e nos seus personagens atraindo percepções e vivências de realidade totalmente diferentes.
O relógio batendo à meia noite prenuncia uma passagem mágica, misto de fantasia e realidade, imaginação e loucura, pequenos e grandes sonhos, mistério... Cenário ideal para uma nova aventura!

A chuva é uma metáfora poética de sensibilidade, subjetividade, sentimento que convida à intimidade e desejo de amar.



A narrativa do filme retrata um casal de americanos preparando-se para o casamento e decidem visitar Paris com os pais da noiva, que viajam em assuntos particulares de negócios; inicia com essa discordância de objetivos.
Gil é um escritor bem sucedido de roteiros de filmes e está em busca de inspiração para seu novo livro sobre um personagem que tem uma loja de antiguidades.
 Admira os escritores e artistas parisienses. É um personagem sensível, inseguro, com dificuldades de valorizar-se, apesar de ser um homem inteligente, criativo, e também sonhador, fantasioso, e imagina estar apaixonado por sua bela noiva que o critica com frequência, havendo poucas afinidades entre eles, que se acentuam nessa viajem.
É um casal com personalidades bem opostas e metas diferentes. 



Inês é uma bela jovem com uma visão pragmática da vida, ambiciosa, dominadora, imediatista, tem um olhar turístico e consumista para cidade, faz compras para o casamento e critica Gil, sempre cortando sua espontaneidade e não valoriza sua criatividade; não acredita no sucesso do seu livro e pede que ele mostre a alguém que possa julgar o conteúdo.
  No primeiro encontro com os futuros sogros num jantar, aparecem conflitos ideológicos entre Gil e eles, que se acentuam com um encontro inesperado de um casal de colegas antigos de Inês, que os convidam a visitar Versalhes, cidade afastada de Paris, e Gil não gosta dessa ideia.
Nesse momento inicia um corte na relação do casal, pois Inês está fascinada por Paul, com quem já teve um caso amoroso no passado.
Esse encontro de coincidência pode indicar uma Sincronicidade ou princípio de conexão acausal que não se explica pela razão lógica, permitindo o desenvolvimento da trama para uma direção oposta ao que Gil fantasiava romanticamente com sua noiva.
 A vida é feita de coincidências significativas como essa, podendo produzir mudanças e grandes transformações.
Paul é um tipo arrogante, onipotente, falso intelectual, sedutor e pragmático. Carol é uma figura apagada, dominada pelo companheiro.
 Inês gosta do estilo de Paul que se assemelha à sua proposta de vida baseada na aparência.
Seus pais, pessoas de nível social elevado, não estão satisfeitos com seu futuro genro sonhador e pouco ambicioso, na sua inocência de sentir a vida como um louco e criança, sem limites, constelado no arquétipo da Criança Divina, representação do Self.
Vemos o arquétipo da Persona, papéis ou máscaras que representamos na sociedade através das figuras de Paul, Inês e seus pais, preocupados em manter as formalidades.
Gil rompe esse padrão de comportamento, expressando sua subjetividade ou mundo interior, indicando um homem com uma anima forte que expressa sua afetividade, espontaneidade, independente do julgamento alheio.
A anima é o arquétipo da feminilidade inconsciente do homem.
Atrás da Persona, no entanto, esconde-se a Sombra desses personagens: Inês e Paul, traidores e dissimulados, egoístas, insensíveis e inflados. Paul pode ser considerado um espelho para Inês.
Ela aceita o convite dos amigos para ir a Versalhes e Gil acompanha; Paul fica no papel de guia turístico e professor, monopolizando o passeio, contrariando a proposta descontraída de Gil.
 As mulheres estão fascinadas pelo conhecimento intelectual de Paul e Gil sente-se excluído e inferior.
Segue-se um novo convite de degustação de vinhos pelo sogro e novamente Carol reforça o ego do marido que é expert em vinhos.
Gil está solto e bebendo muito nesse encontro; expressa enamora mento pela sua noiva; na despedida, o casal os convida para dançar e dessa vez Gil recusa e Carol decide acompanha-los.
Gil caminha pela cidade meio bêbado, perdido, não sabe onde fica o hotel.  
Senta-se numa escadaria e sonha que o permite ir para outro tempo.


 O relógio bate à meia noite e um carro antigo Peugeot se aproxima com pessoas convidando-o a viver uma aventura, se divertir!  Estão bebendo e lhe oferecem champanhe para continuar a noite.
 A sua fantasia se torna real quando se vê numa festa para Jean Cocteau, poeta, escritor e cineasta francês, ao som da música de Cole Porter ao piano (Let’s Fall in Love) e rodeado de escritores dos anos 20, Zelda e Scott Fitzgerald, e outros. Gil está perplexo diante do que vê e se apresenta como um escritor que se interessa em mostrar seu livro.
O sonho de Gil acontece nos chamados “Anos Loucos”, uma época de profundas transformações culturais e sociais, que se seguiu ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Uma nova mentalidade surgia na capital da arte sempre aberta a todas as influencias revolucionárias e vanguardistas da época e que foram precursoras do Movimento Modernista.
 Paris era o ponto de encontro dos grandes intelectuais e artistas.
A influência americana é marcante na música através do jazz e da dança como o charleston.
O movimento feminista emergia com força começando a mudar profundamente os relacionamentos e a vida social
A tônica era aproveitar a vida que é curta... As festas, as bebedeiras e as farras são características da vida boemia. 
O personagem Gil estava revivendo essa idealização do passado como fuga do presente ou ampliando seu momento através da capacidade de fantasiar?
Sonho e realidade se misturam no personagem central da trama.
Gil encontra inspiração no ato de caminhar livremente pelas ruas de Paris, fortalecendo suas escolhas. Está indeciso e perdido. Sonha...
Na visão Junguiana, os sonhos compensam a vida consciente; são os grandes mensageiros do inconsciente e cartas do self.
A linguagem dos sonhos é atemporal podendo falar do presente, passado ou futuro e sempre se refere ao estado psíquico do sonhador; não segue a lógica cartesiana e se comunica através dos símbolos e das metáforas.
Gil sonha que está em Paris dos anos 20... Um cenário oposto ao que ele vive; um ambiente de efervescência cultural, artística e social...
O sonho revela exatamente o que ele precisava e que estava dentro do próprio ambiente psíquico em potencial.
De que tem medo Gil Pender?
Seu primeiro desafio em sua viajem interior, é o encontro com o jornalista e escritor Hemingway, que escreveu o livro “Paris é uma festa,” baseado nas anotações em cadernos, frutos de sua vida cotidiana no período entre 1921 e 1926 aprendendo a arte de escrever junto a outros talentos como Joyce e Fitzgerald, para os quais a literatura era uma forma existencial, livre, aventureira, festiva, de encontrar um sentido para a vida. 


Conta-se que Hemingway esteve em 1957 em Paris de passagem, e recupera no hotel Ritz, onde se hospedava seus escritos do passado, através dos bagagistas que lhe entregam duas malas esquecidas de trinta anos antes.
“Paris é uma festa” surgiu postumamente em 1964.
O encontro de Gil com Hemingway revela um rosto angustiado e triste, solitário, bebendo, e afronta esse desconhecido com o tema do amor e da morte.
 “Nunca escreverá bem se tiver medo de morrer”. “Já amou uma mulher”? 
“Toda covardia vem de não amar ou não amar bem, o que dá no mesmo”.  
Diz que vai apresentá-lo a Gertrude Stein, para avaliar seu livro.
 Gil se identifica com Hemingway que possui as características que ele deseja para si: é criativo, corajoso, ambicioso e intrépido ao escrever. É o próprio sonho de Gil, seu modelo.




Gertrude Stein, escritora, poeta e feminista nascida nos EUA, vivia em Paris, onde sua casa era ponto de encontro de jovens artistas vanguardistas, como Pablo Picasso do cubismo e Dali do surrealismo.
Enquanto isso, no sec. 21, os passeios dos dois casais continuam e numa visita ao museu do escultor Rodin, a guia é contestada por Paul sobre as duas mulheres de Rodin, afirmando que a esposa é Camile Claudel e Rose é a amante.
 Gil defende a guia com segurança reforçando sua informação, para surpresa de Inês que considera Gil insano.
Este convida Inês para viver as suas experiências, levando-a para a escada onde ele encontrava os antigos escritores e artistas.
 A escada simboliza um portal para o imaginário ou mundo interno do sonhador.
 Inês se cansa de esperar e retorna ao hotel só e frustrada. Estão totalmente desencontrados.
Gil continua suas vivências e sonhos; apaixona-se por uma linda mulher Adriana que o corresponde e é musa inspiradora de Picasso, Modigliani, Hemingway e outros. Ela estuda moda com Coco Chanel e se identifica com o passado como ele.
Enquanto isso, Inês está saindo com Paul para dançar e a paixão do passado é retomada.
Gil foge no seu sonho para o passado, para não enfrentar a realidade presente dolorosa dos fatos.
E Carol?  Fica ausente?
Em um de seus passeios pela cidade, entediado com a noiva e sogra, encontra uma loja onde foi atraído pela música de Cole Porter e pela vendedora jovem e atraente. Travam um diálogo fugaz e é interrompido.
Inês e os pais vão passar um fim de semana fora da cidade e Gil se recusa a ir, continuando sua viagem interna.




 Sonha que está com Adriana na Belle Epoque ou Idade de Ouro período que vai de 1880 ao início da primeira Guerra Mundial em 1914.
É caracterizada por profundas transformações culturais que traduzem novas formas de pensar e viver o cotidiano; era de beleza, inovação e paz entre os países europeus.
 A cena cultural estava em evidencia, os cabarés, o cancan e o cinema havia nascido. A arte tomava novas formas com o Impressionismo e o Art Nouveau.
Gil se encontra com seus grandes expoentes Tolouse Lautrec, Gaugin e Degas.
Adriana representa um aspecto da anima idealizada de Gil e através dela pode vivenciar o amor romântico que tanto desejava. Chegam ao clímax do sonho.
Seu sogro constelou o arquétipo da sombra contratando um detetive para segui-lo nas noites misteriosas e este também se perdeu em suas fantasias e ninguém sabia dar notícias dele.
O detetive foi influenciado por outros níveis da consciência? O que aconteceu?
Em sua última viagem pela Belle Époque com Adriana, ele afirma sua identidade no presente 2010 e que está visitando 1880. Ela diz pertencer ao passado e ser emotiva e que vai ficar lá.
Eles se despedem. É a lise ou desfecho do sonho.
Gil reencontra com Gertrude que elogia seu livro que considera como ficção científica e isso dá coragem e estímulo para sua criatividade e seguir adiante com confiança..
 Ela também o adverte que ele precisava enxergar a relação paralela entre Inês e Paul.
 Ela diz que a função do artista é encontrar um sentido para o vazio de sua existência.
Gertrude foi uma mentora para Gil, funcionando como arquétipo materno positivo, aspecto também de anima, no seu papel de incentivadora da profissão de escritor dando asas à sua liberdade criadora.
Para que CRIAR?
Gil retoma a conexão com o presente e decide separar-se da noiva que fica surpresa com sua escolha consciente.
Ele realizou a metanóia ou transformação através do imaginário, fortalecendo seu Ego e libertando-se dos padrões convencionais para seguir o curso evolutivo de seu processo de individuação.
O filme traz com maestria uma das máximas da Psicoterapia Junguiana:
“Os Sonhos Curam”.
Através dos seus sonhos, Gil ressignifica o presente; sua autoestima melhora, fortalece seu ego, sai da simbiose neurótica com sua noiva cortando os laços que o aprisionavam e assume suas escolhas de ficar em Paris, em busca de sua nova identidade como escritor e do seu Self criador.
Caminha pelas ruas de Paris à noite, avista a Torre Eiffel iluminada como estrelas cintilantes e tem um encontro sincronico com a vendedora de instrumentos musicais, do disco de Cole Porter.
Convida-a para caminhar pelas ruas e a chuva cai novamente; ela diz que gosta de ficar molhada como ele e seu nome é Gabrielle.
“Paris fica mais bonita na chuva.”
Essa viagem histórica, literária, artística e cultural, abrangendo séculos passados deu continuidade à Arte Moderna e Pós Moderna coexistindo essa ligação misteriosa de várias épocas da civilização em uma única História que reúne Tudo e Todos através do Inconsciente Coletivo que é Universal e Arquetípico.
Podemos considerar a cidade luz, Paris, como um arquétipo mágico, capaz de despertar o imaginário das pessoas sensíveis e criadoras.
Continuamos caminhando pela Cidade Luz e sendo influenciados por todos esses grandes homens e mulheres que fizeram a História da Humanidade evoluir com suas criatividades e gênios, do século 18 ao século 21.  
“Paris é uma Festa” de Hemingway e continua celebrando a Beleza que elegeu para si.
O grande diretor realiza seu sonho artístico levando milhões de expectadores à Cidade Luz.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Cinema no Consultório

 

O Núcleo de Estudos Junguianos da Bahia, reinicia suas ativiadades com o já consagrado Cinema no Consultório. O objetivo já conhecido é a Interpretação de Filmes sob a ótica da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, através do estudo dos Arquétipos. O Filme escolhido desta vez é Meia Noite em Paris, escrito e dirigido por Woody Allen.
O encontro reúne todos aqueles interessados em desvendar os mistérios da Psique Humana. 

Venha dar asas a sua Imaginação...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Recital "Canções e Passarinhos"


"Seguindo a orientação da poeta e atriz Elisa Lucinda, nós, da Escola Lucinda de Poesia Viva, somos "dizedores de versos", mas desse jeito assim, coloquial e expressivo, divulgando a poesia  com a linguagem do dia a dia.
Elisa Lucinda  ensina com sensibilidade aos alunos a dizerem versos com a "voz do cotidiano e as imagens que este nos traz, levando o público a mergulhar na humanidade dos poemas".

E depois de tornados alunos da escola, saimos por ai a dizer versos, divulgando a poesia nos mais diversos espaços culturais da cidade, onde encontramos apoios e parcerias.

E agora, com o apoio da Livraria Saraiva, apresentaremos o Recital "Canções e Passarinhos" composto por poemas de Cecília Meirelles e Mário Quintana.

As apresentações serão realizadas no Espaço Cultural da Livraria Saraiva do Shopping Salvador, no dia 09 de outubro  e do shopping Iguatemi no dia 16 de outubro, sempre às 18:00 horas

Esperamos você lá.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Encontro com Dalai Lama
 Por Verusa Silveira


Pensei em compartilhar esse grande encontro em função da importância desse tema contemporâneo que é a possível integração entre ciência e religião.

O Dalai Lama, uma das lideranças mais significativas no contexto atual, focaliza a ética moral como um fator essencial para o desenvolvimento atual da humanidade. Essa mensagem nos remete aos filósofos antigos como Platão na busca do bem e do belo.

Ele afirma com humildade que só o dinheiro não trará felicidade para essa sociedade em transição de valores e que a compaixão é essencial no relacionamento entre seres humanos. O seu discurso é de um homem simples e um “oceano de sabedoria” que representa seu nome. Em nenhum momento ele afirmou uma verdade, respeitando os ensinamentos dos cientistas jovens, médicos psiquiatras e neurologistas, pesquisadores da neuro ciência através da tecnologia e neuro imagem em pacientes no estado mínimo de consciência, vegetativo, coma.

A indagação do conceito de consciência se tornou o ponto central do debate, sem uma resposta definitiva, pois implica uma visão mais ampla do ser humano, considerando matéria e energia.

As diferentes percepções de vários pesquisadores do tema "estados de consciência", não respondem ao mistério da vida e morte do ser humano em sua angústia existencial de busca de paz e felicidade.

O que observamos é que Sua Santidade se mostrou como um aprendiz em relação aos jovens cientistas, sendo uma grande lição para todos nós que estamos buscando evolução no século 21 diante dessa grande crise individual e planetária.

Ele deu ênfase no suporte a familiares e cuidadores de pessoas que estão passando por esses estados vegetativos para diminuir as ansiedades e depressões, possibilitando escolhas conscientes favoráveis.

O método científico assim como as crenças em geral têm suas limitações. A consciência está em movimento, a mudança é permanente, tudo é relativo e temos que nos adequar à realidade de nossa vida e dos acontecimentos no mundo atual, sendo um grande desafio e oportunidade a vida nesse século de tecnologia e humanização.

Considero o Dalai Lama, uma estrela cintilante ou ponto luminoso nessa busca de um significado mais profundo para a existência.

O Relaxamento e a Meditação foram práticas contemplativas indicadas por cientistas e budistas, para efeito de saúde integral no físico e psíquico com pesquisas realizadas em hospitais com resultados satisfatórios.

Todos os seres humanos querem se libertar do sofrimento e serem felizes. As expressões da fé e da razão analítica devem estar unidas nesse propósito de construir uma sociedade pacífica e com valores humanistas onde a ética prevaleça como sugere o Dalai Lama, Oceano de Sabedoria.

São Paulo, 16 de setembro de 2011.


Verusa Silveira
Médica Psiquiatra e Psicoterapeuta Junguiana

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Mary e Max
                                                                   por Márcia Hita


“Uma Amizade Diferente"

Mary e Max é um filme encantador que fala do Amor: um verdadeiro amor, diferente, improvável; um amor fraterno.
É a história de uma amizade entre uma jovem menina Australiana de 8 anos Mary Daisy Dinkle e  um senhor Nova Yorquino chamado Max Jerry Dorowitz de 44 anos.  Apesar de viverem afastados, de terem uma grande diferença cultural, de idade e viverem em mundos totalmente diferentes, sincronicamente suas vidas se cruzaram num Encontro genuíno: um reencontro de Almas...
 Baseado em fatos reais, o filme, usa a descrição, a delicadeza e o humor para tratar de temas sérios, profundos e complexos como: abandono, rejeição, transtornos psíquicos, obesidade mórbida, alcoolismo, bullying, homossexualismo...
Mary escolhe o nome de Max aleatoriamente em uma lista telefônica, no correio, e eles passam a se corresponder através de cartas: surgindo assim uma grande amizade que iria mudar suas vidas. Um vínculo de amor baseada na sinceridade, confiança e respeito, que venceu barreiras físicas, geográficas e psicológicas.
Pela correspondência, apesar de nunca terem si visto, eles filosofam de tudo: religião, sexo, amor, vida em sociedade, além de trocarem opiniões, questionarem dúvidas e terem brilhantes idéias.  
Descobrem também que tinham muitas afinidades e gostavam das mesmas coisas, parecendo em alguns momentos serem a mesma pessoa. Tiveram históricos de rejeição e abandono, compartilhando de uma mesma dor: a falta de amor e a solidão.
Tudo que mais desejam é alguém com quem possam dividir seus mundos, suas idéias, suas dúvidas, suas alegrias e dores: sua Vida. Alguém que os aceite como são em sua alteridade e para quem possam confiar seus mais secretos desejos e segredos... Um verdadeiro amigo.
Mary e Max não eram aceitos por serem diferentes, não convencionais, não estando no padrão exigido pela censura social.
 Através das cartas, eles realizam juntos seu Processo de Individuação, que é o termo que a Psicologia Junguiana usa para designar o processo de transformação do ser humano do Ego em direção ao Self, através do autoconhecimento.
 A realidade de Mary e Max nos faz refletir sobre a dificuldade em se relacionar com o outro e estabelecer vínculos que estamos vivendo e que reflete em primeiro lugar um distanciamento de nós mesmos.
 Os solitários sofrem por "não olhar sua relação consigo mesmo", buscando no mundo exterior aquilo que deveriam buscar em sua interioridade.. É preciso primeiro de tudo me reconhecer, aprender a ficar comigo, me acolher, me aceitar, me amar, me curtir, e ter uma qualidade de vida interior mais saudável,  superando as necessidade primitivas do meu nascimento e desenvolvimento, para poder me relacionar com os outros. Solidão nada mais é que sentir falta de mim mesmo.
O filme que fala das emoções através dos conflitos dos personagens e de como muitas vezes as reprimimos ao invés de expressá-las de forma adequada e saudável. Observamos um desfile de emoções: alegria, tristeza, raiva, dor, ansiedade, medo, ternura, indignação. Enquanto Mary é um tipo muito sensível e bem emocional, Max era racional e pragmático. Os dois tinham assim Tipos Psicológicos opostos e se completavam.
“Mary e Max” é uma animação escrita e dirigida por Adam Elliot, que usa a técnica cinematográfica stop motion isto é movimento parado. Utiliza a disposição seqüencial de fotografias diferentes de um mesmo objeto inanimado para simular o seu movimento, como nos antigos desenhos animados.
Tudo desde os personagens e o cenário são fabricados em massinha num verdadeiro trabalho de arte e sensibilidade.
 Os personagens são fantásticos, estilizados, cheios de adornos, caricaturas da vida real, com um realismo incrível, conseguindo representar as características físicas e psicológicas de cada um: melancolia, dor, sofrimento: como eles se apresentam para o mundo; sua máscara.
 O cenário é riquíssimo e ambienta a vida e os mundos completamente diferentes em que vivem Mary e Max, atravessando 20 anos de história e de vida de 1976 a 1996.


O filme inicia apresentando o endereço de Mary: Ela vive em Monte Waverley na Austrália, na estrada Lamington, num típico bairro de casinhas de tijolos com cenas da vida cotidiana como chuteiras penduradas, antenas de TV, bola de futebol no telhado, patins no jardim, o lixo, a caixa do correio, o guincho de água, roupas penduradas, as moscas, pássaros, flores.
Mary vive imersa nesse mundo australiano marrom, que é sua cor preferida, a cor de seus olhos (cor das poças de lama) e também de uma marca de nascença que tem na testa (na cor de cocô). O clima marrom é salpicado pelos objetos em vermelho, que aparecem em destaque; como a presilha de Mary, as flores, as malas, seu pompom, a boca de sua mãe etc.. A cor marrom está relacionada a repressão emocional, ao medo do mundo  externo e a baixa auto-estima.
 Ela é uma menina tímida, baixinha, meio desajeitada, usa óculos, é muito observadora, sensível e meiga. Era filha única de um casal, com uma dinâmica familiar profundamente neurótica e desestruturada. Seus pais eram individualistas, negligentes, orgulhosos, egoístas e omissos em suas funções de nutrir a filha de amor, carinho, atenção, compreensão.


Seu pai, Noel Norman Dinkle era um homem anti-social, introspectivo, apático, calado e triste. Depressivo, vivendo a margem da vida, em Tanatos,  sem vitalidade, e prazer, num clima de morte. Não expressava seus sentimentos. Trabalhava em uma fábrica colocando a cordinha nos saquinhos de chá e passava a maior parte de seu tempo em casa, isolado em seu galpão, bebendo licor irlandês e empalhando pássaros que encontrava na beira da estrada, sem participar em nada da vida da filha. Apesar de ser o provedor da família, sua figura paterna e masculina era inexpressiva.

 Sua mãe, Vera Lorraine Dinkle, intrigava Mary: era instável, fútil, vaidosa, com excessiva preocupação com a aparência, sendo espalhafatosa e perua (boby na cabeça, casaco de pele, piteira, batom vermelho). Perversa e sem sentimentos maternais, não sabia acolher a filha a quem tratava com crueldade e menosprezo. Seu hobby era ouvir o Jogo de Criquet no rádio enquanto cozinhava. Era dependente química do cigarro e do álcool, consumindo Sherry e Thompson como se fosse chá. Era Cleptomaníaca roubando mantimentos e objetos de lojas e supermercados. Podemos ver Vera como um ser humano com muitos processos para resolver e transformar, uma pessoa também com grandes dificuldades com seus sentimentos, doente e aprisionada em sua persona e em sua sombra.
Mary tinha um profundo sentimento de rejeição, não se sentindo amada pelos pais e sua própria mãe lhe disse que ela tinha sido “um acidente”. A imaturidade psicológica infantil, de integrar essa dura realidade resulta em auto-estima baixa, complexo de inferioridade e sentimento de culpa por estar no mundo. Junta-se a isso uma não aceitação de si-mesmo. Tudo isso repercute no desenvolvimento saudável de Mary que cresce insegura com sua Imagem corporal, introvertida, tímida e com dificuldade de se relacionar.
Mary não tinha amigos e se sentia muito sozinha, por isso adotara um Galo chamado Ethel como animal de estimação e fiel companheiro. Seus únicos amigos era os Noblets de seu desenho animado preferido da TV eles eram marrons, viviam em um bule e tinham muitos amigos. Era muito criativa e fazia seus próprios brinquedos, inclusive os seus Noblets com conchas, pompons e ossos.  Adorava chocolates e comer leite condensado na lata..
 Usava um anel para medir o humor a depender da cor que estivesse.
Era curiosa e tinha muita imaginação, vivendo num mundo de fantasias. Ela sonhava acordada (devaneios) em se casar com um lorde escocês e viver em um castelo, ter 9 filhos,2 patos e um cachorro chamado Kevin. Esse sonho reflete o desejo de construir uma família com um modelo diferente do dela.

Max vive em um cenário Nova Yorquino, escuro, cinzento, em preto e branco, típico das cidades grandes com seu espaço caótico, ruas estreitas, sujas, arranhas céus, violência e balas perdidas. Contrastando as línguas dos personagens eram vermelhas. A ambiência reflete seu estado de espírito sempre melancólico, triste, ansioso e com predominância idéias negativas.
Excêntrico, pragmático e racional vivia completamente sozinho em um minúsculo apartamento. Não se adaptava a vida agitada, barulhenta da cidade, com seus cheiros fortes, luzes ofuscantes e sonhava em viver em um lugar como a Lua: desabitada, silenciosa, tranqüila. 
Max teve que enfrentar a dor da perda, o sabor do abandono e da rejeição muito cedo. Sua mãe foi abandonada grávida em um kibutz e se suicidou quando ele tinha 6 anos, deixando-o órfão.
Muitas das dificuldades de Max são por conta da Síndrome de Asperger, que é  considerado um transtorno neurobiológico da Afetividade.  É caracterizado por um entendimento lógico e literal da linguagem e a ausência de conecções com o mundo simbólico, o que leva a um não reconhecimento das emoções no rosto das pessoas. A conseqüência é uma enorme dificuldade na comunicação e nas relações interpessoais, levando ao isolamento e muitas vezes a Depressão. Não quer dizer falta de sentimentos e sim uma dificuldade em expressá-las.     
Com 1.80 de altura, Max pesa 160kg e tem obesidade mórbida, freqüentando semanalmente as reuniões dos Comedores Anônimos para tentar perder peso. Come por prazer e por compulsão para diminuir sua ansiedade e angústia.
Faz acompanhamento Psiquiátrico
 Tem péssimos hábitos alimentares, ingere comidas prontas industrializadas como Quiche de Batatas Glicks na terça-feira, Peixe picante do Capitão na quarta e Panqueca de Queijo Yentls na quinta. Diverte-se preparando suas próprias receitas.
Para enfrentar a solidão ele dividia a casa com um peixe, que freqüentemente se suicidava, dois caracóis, um periquito Biscoito e Hal, gato cego Hal. Também tinha um amigo imaginário Sr. Ravioli.
Assim como Mary, seu desenho animado preferido era os Noblets, porque eles representam uma estrutura social articulada e tinham muitos amigos. Sofria de insônia e passava as noites contando carneiros, vendo TV, pegando moscas no ar para seu peixe ou comendo cachorro quente de chocolate, comida que ele mesmo inventou e que era sua preferida. Os chocolates também eram para ele uma paixão.
 Os três desejos de Max eram ter um amigo de verdade, uma coleção completa de Noblets e uma fonte inesgotável de chocolates.
Tinha ataques de ansiedade quando perdia o controle por ser confrontado por alguma situação nova e estressante, entrando em Pânico. Ele freqüentemente se reporta ao passado e a sua infância difícil e sofrida, quando as crises começaram. Traz marcas do abuso e do bullying que sofria na escola onde era perseguido por ser judeu, o que resultou em medo e stress freqüentes.
Tem preocupação com o rumo que a vida social vem tomando, pois achava as pessoas sem educação, e sem respeito pelo próximo. Sempre era mal compreendido por todos nas ruas, que o julgavam mal e o consideravam perigoso, tarado ou mau elemento, o que aumentava sua timidez e seu complexo de rejeição. Tinha dificuldade de compreender as pessoas. “Eu acho que as pessoas me acham indelicado, não consigo entender porque ser honesto pode ser errado. Será por isso que não tenho amigos exceto você?”
Durante sua vida teve muitos empregos, todos informais e que não dependiam de formação escolar: foi coletor de fichas no metrô, embalou macarrão em uma indústria, imprimiu logos de artigos novos em uma empresa que fabricava freesber, fez parte de júri (para receber biscoito e café de graça), coletou lixo na rua, serviu ao exército dos EUA, foi comunista e finalmente trabalhou numa fábrica de camisinhas, apesar de nunca te usado nenhuma.
A mãe de Mary interceptou sua primeira correspondência e quase que a carta de Max se perde. Graças ao seu galo de estimação, Mary consegue resgatá-la. Passa a escrever escondido à noite e a receber as cartas pelo endereço de seu vizinho. Ele é um veterano de Guerra, que não tinha pernas e vivia na cadeira de rodas, sofrendo de Agarofobia ou fobia social. Nunca saia de casa e sempre que tentava atraia algo negativo.
Mary entregava correspondência para juntar dinheiro primeiro para comprar um castelo e depois para ir ver Max na América. Ela também sofre bullying na escola de seus colegas que a rotulavam, criticavam de sua aparência e até da professora, sem nenhuma pedagogia. “Você já foi provocado?”, pergunta a Max.
As cartas de Mary e seus questionamentos mobilizavam profundamente Max que entrava em pânico ficando muitas horas parado para se recuperar ou comendo compulsivamente, pois traziam a tona memórias ou assuntos que ele não sabia como lidar, seus complexos mal resolvidos e sua imaturidade emocional.
 Mary confidencia a Max que está encantada com seu vizinho Damian Popodopolou’s que era grego e gago. Conta do seu desejo de namorar e fazer sexo. Está apaixonada. Revela também suas descobertas sobre como as pessoas namoram e como são feitos os bebês. Questiona se ele tem namorada ou esposa e se já fez sexo.” Você pode me explicar sobre o amor e como eu posso ser amada?” Max não sabe nada sobre o amor e não tinha um bom histórico com as mulheres: nunca dividiu a cama com nenhuma além de seu saco de água quente Sarah. Romance e Amor eram coisas misteriosas para ele. Ele não compreendia o amor. Se ao menos houvesse uma equação matemática para ele... Não tinha uma solução lógica, racional. Max tem um colapso e vai parar no hospital, onde fica durante 8 meses sendo cuidado com medicação e eletrochoques. É diagnosticado como Depressivo e com obesidade grave. Observa-se aí a realidade dos doentes psiquiátricos.
Quando voltou para casa foi recebido por sua vizinha Ivy e resolve não escrever mais para Mary para manter sua sanidade mental.
No seu aniversário de 48 anos ele ganha na loteria e fica rico. Interessante notar que Max não muda de vida, não infla o Ego. Apenas a satisfação de dois dos seus três desejos já o deixa felicíssimo, mas não realizado, pois não realizara seu desejo de ter um amigo de verdade e sente saudade de Mary. Conclui que dinheiro não traz felicidade e não compra um verdadeiro amor. Então ele doa tudo para Ivy.
Inflada, Ivy torra o dinheiro com vaidades, plásticas e aventuras e acaba vítima de seu próprio desequilíbrio. Morre em um acidente.
Max é aconselhado pelo seu Psiquiatra a escrever para Mary e lhe contar a verdade de quem era e também seus defeitos. Mary, que estava triste por não ter notícias,  queimara suas cartas com raiva, mas fica radiante quando recebe novamente uma carta dele.


Ele conta que tem Síndrome de Asperger, tinha consciência de sua doença e a aceitava, porque se não fosse assim não seria ele mesmo. As doenças fazem parte de nosso processo de cura e é através dela que mudamos e evoluímos. Ele confessa sua Sombra...
" Não me sinto diferente, não quero me curar. Gosto de ser um Aspie. A única coisa ruim é não chorar.”
A amizade de Mary e Max ressuscita.  Mary envia lágrimas suas para o amigo e este foi o melhor presente que ele recebeu na vida. Suas cartas voavam rápidas e recheadas de chocolates e de amor.Interessante observar que os presentes que eles trocavam permaneciam com seus tons característicos, vermelhos no mundo de Max e preto e branco no de Mary. Ele aprendeu a ler as cartas com cuidado e tomava remédio quando sentia que ficava ansioso. Ele passava as cartas a ferro cuidadosamente e guardava em um lugar especial
O tempo passou e enquanto Mary crescia para cima, Max crescia para os lados. E como nada na vida é perfeito, ambos acabam passando por grandes decepções, fracassos e até algumas tragédias em suas vidas.
Porque ele era visto como diferente e os outros eram considerados normais? O que é a normalidade? “Os seres humanos são ilógicos jogam comida fora quando tem crianças passando fome, desmatam florestas quando precisam de oxigênio, criam horário para os ônibus mais estão sempre atrasados. “Só existem duas coisas infinitas: O universo e a estupidez humana” Einstein
Mary passa por perdas.  Em 1988 seu pai depois de trabalhar 40 anos em um mesmo lugar, se aposenta e abandona também a taxidermia para começar uma nova atividade de detectar metais. Infelizmente foi vítima de um acidente, sendo engolido pela onda de um tsunami.
Mary recebe uma herança do pai e vai para Universidade estudar sobre os Distúrbios da Mente, para aprender mais sobre a doença de Max. Damian também vai estudar para ser ator. Mary faz uma plástica para tirar a mancha marrom da testa e se produz para o amado, mas não tem o resultado que esperava, ficando frustrada. A conclusão é que não adianta a mudança externa sem uma transformação interna e é Max quem lhe aponta o caminho lhe enviando um biscoito que lhe foi dado por uma menininha na rua: “Primeiro ame a si mesmo”...
Um ano depois, aos 17 anos Mary perde sua Mãe, que se entrega ao alcoolismo depois da morte do marido e se envenena por acidente com o líquido que ele usava para embalsamar os animais. A morte da mãe foi um marco para Mary, que enterra com ela seu anel de medir humor e liberta-se da relação destrutiva. Amadurece e cresce.



Pouco tempo depois Mary se casa com seu único e grande amor Damian. Tudo foi perfeito como em suas fantasias, tendo sido muito bem acolhida pela família do noivo. Sua auto-estima estava maravilhosa e sua confiança era quase insuportável. Na Universidade ela brilhou e se formou e sua proposta era curar as Doenças Mentais. Para isto aprofundou seus estudos e começou a escrever uma tese sobre a Doença de Asperger usando Max como estudo de caso. Sua pretensão era curá-lo. Então lhe envia o primeiro exemplar e lhe diz que vai dividir com ele os direitos e que vai visitá-lo dentro de uma semana.
Max não recebe bem o livro, fica indignado, profundamente magoado, triste e confugado. Se sente traído por sua única amiga. Em sua dor, arranca a letra M de sua máquina e a envia para Mary. Esta recebe a correspondência na hora de viajar e então cai em profundo pesar. A idéia de ter feito seu melhor amigo sofrer lhe causa profundo pesar e um arrependimento profundo se abate sobre ela que manda parar toda a impressão dos livros e os destrói, destruindo junto sua carreira.
Desgostosa ela entra em um processo de depressão reativa. Perde o interesse pelo mundo, começa a beber repetindo o padrão materno. Manda para Max uma lata de leite condensado com a palavra Desculpe: pedia perdão... Passa a esperar cartas que não chegavam e a se destruir a cada dia. Tem a sensação de estar morta.
Sua relação com Damian chega ao final sem ela perceber. Ele a abandona para viver um amor homossexual pelo seu amigo de correspondência e foi morar Nova Zelândia em uma fazenda de ovelhas. Ele lhe escreve contando tudo em despedida e diz que a sua busca de cura estava indo pelo caminho errado.
Max está zangado, com raiva e tem um ataque de fúria com o mendigo da calçada, que lhe pede desculpa... Imediatamente ele lembra de Mary e reconhecendo a emoção fica profundamente tocado. Resolve então Perdoar Mary e para se retratar lhe manda toda sua coleção de Noblets como prova de seu amor. Sente então que o mundo está novamente em equilíbrio.
Em completo delírio, imersa em sua dor, Mary quer terminar com sua vida, se despedindo das fotos de todas as pessoas que amava enquanto ouve a música Que Será Será, com a corda no pescoço e a boca cheia de Valium. Então o seu vizinho Len salva o dia e depois de 45 anos de reclusão ele atravessa a rua em sua cadeira de rodas para entregar a correspondência de Max, evitando a tragédia e salvando a vida de Mary.
“O motivo porque lhe perdou é porque você não é perfeita, igual a mim, todos os seres humanos são imperfeitos, igual a mim e a você. Quando eu era jovem queria ser outra pessoa, qualquer uma menos Eu. Se eu tivesse em uma ilha  sozinho tinha que me acostumar comigo mesmo. Tinha que aceitar-me com meus defeitos e tudo mais.Não escolhemos nossos defeitos eles são parte de nós e temos que viver com eles.Podemos no entanto escolher nossos amigos e estou feliz por te escolhido você. A vida de todo mundo é uma calçada longa, umas bem pavimentadas outras rachadas, cheias de guimbas e cascas. A sua é iguala a minha cheia de rachaduras.Espero que um dia nossas calçadas se encontrem e poderemos compartilhar uma lata de leite condensado. Você é minha melhor amiga minha única amiga.”
Um ano depois Mary chega a Nova York com seu bebê no colo para conhecer Max, como havia prometido. Passaram-se 20 anos, desde que começaram a se corresponder. O encontro dos dois foi emocionante, uma experiência de amor na dor. Encontro e Despedida. Mary encontra Max morto em sua cadeira, havia feito a passagem pacificamente ainda aquela manhã depois de tomar sua última lata de leite de moça. Tinha uma expressão de profunda paz e o espaço do seu pequeno apartamento era pura Luz: Ela vai até a máquina e coloca de volta a letra ‘M’, depois segura em sua mão. Vê o seu de livro expressões faciais e a garrafa com suas lágrimas junto ao espelho onde estava presa sua foto e então maravilhada se dá conta que no teto estavam presas todas as cartas como um céu, que recebera de Mary durante todos aqueles anos e que o alimentaram de amor, nutrindo sua vida de carinho, confiança. Foi um momento mágico, um encontro numinoso com o sagrado, com o self. A Morte como elemento de Transformação e Cura. Em êxtase ela chora de alegria e felicidade apesar da dor da perda. Ela constata que ele tinha cheiro de alcaçuz e olhos da cor de poça de lama como ela... As luzes se acendem em Nova York e dentro dela também...

 A transformação de Mary e Max só foi possível através da abertura do coração para o Amor...

 A minha pergunta preferida é sobre o táxi: se um táxi andar para trás é o taxista quem tem que nos pagar? 


“Querido Sr. Max Horowtz, meu nome é Mary Dayse Dinkle, tenho 8 anos, 3 meses e 9 dias de idade e minha comida preferida é leite condensado, seguido de perto por chocolate....De onde vem os bebês na América? Seria ótimo se você pudesse escrever de volta e ser meu amigo. Atenciosamente M.D.D. P.S. Espero que goste da barra de chocolate que estou te enviando “


“ Cara Mary Daizy Dinkle, agradeço a carta que abri e li as 21he 17min.estou tentando perder peso porque meu psiquiatra Bernard hazlhof, diz que um corpo saudável resulta em uma mente saudável... Ele diz que minha mente não é saudável. Aqui na América os bebes são postos pó rabinos se você é judeu e por freiras se você é católico e por prostitutas se você é ateu.”escreva logo para mim: seu amigo na América. PS: envio uma foto”

“Você é minha melhor amiga. Você é minha única amiga.”
 “Queria ter um amigo que não fosse imaginário ou animal de estimação ou boneco de plástico...”
“a vida de todo mundo é como uma longa calçada. Algumas são bem pavimentadas, outras (…) têm fendas, cascas de banana e bitucas de cigarro”.



"Deus deu-nos nossos parentes, mas teve a bondade de nos deixar escolher nossos amigos."

(Ethel Munford)
Bibliografia:
Leloup, Jean-Yves: O Essencial do Amor



Márcia Hita: Médica e Psicoterapeuta Junguiana, Membro do Núcleo de Estudos Junguianos e do CIT Colégio Internacional dos Terapeutas.





Amigos são luzes!


 Amigos são luzes que iluminam nosso caminho quando só vemos escuridão.
Luzes que nos fazem enxergar com clareza o que nos parece tão confuso.
 Luzes que depositam em nossos olhos o brilho de um abraço-irmão.
Amigos são luzes de fogos de artifício celebrando nossas vitórias.
 Luzes que nos revestem de brilho diante das coisas mais singelas.
 A nos embalar o sono, luzes diáfanas, refletidas na janela. Amigos são luzes coloridas que nos convidam a sonhar.
Luzes enfileiradas adornando nossa árdua trajetória.
 Luzes que se convertem em lágrimas para ao nosso lado chorar.
 Amigos são luzes vindas do mar em forma de pérolas, jóias reluzentes premiando a mais bela amizade.
 Luzes de um palco encantado, que representa a verdade.
Amigos são luzes de vaga-lumes que voam alegres no quintal.
 Luzes que iluminam nossa alma com seu belo cintilar.
Luzes mágicas, que convertem o mais rude casebre em palácio real.
Quem tem um amigo-luz é um ser abençoado.