quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Interpretação do filme "Morangos Silvestres" - Ingmar Bergman.

Interpretação do filme Morangos Silvestres, uma obra prima do grande diretor sueco Ingmar Bergman, escrito e dirigido em 1957.

Recebeu prêmio no Festival Internacional de Berlim como melhor filme em 1958 (Urso de Ouro).

Em 1960 recebeu o (Globo de Ouro) na categoria de melhor filme estrangeiro.

Elenco Principal:
Victor Sjostrom – Prof. Isak Borg
Bibi Anderson – Sara
Ingrid Thulin – Marianne
Gunnar Björnstrand — Evald Borg
Björn Bjelfvenstam — Viktor
Julian Kindahl –Agda
Folke Sundquist – Anders
Naima Wifstrand – Sra Borg, mãe de Isak

O filme foi escolhido por se tratar de uma jornada interior de um cientista médico de 78 anos de idade, que compartilha seus sonhos e lembranças de infância e juventude, sendo rico em simbolismo, vivenciado através de seu Processo de Individuação ou transformação, que pode ser deflagrado a qualquer momento da vida, até mesmo na velhice próximo da morte, que, aliás, é uma grande chance para o salto quântico. No filme, a mobilização se dá através de sonhos que são grandes mensageiros do inconsciente, estados alterados de consciência com visões e imagens do passado e recordações, encontros inesperados e acontecimentos sincrônicos. A mobilização provocada por esses mecanismos criaram possibilidades de encontro com suas próprias máscaras comportamentais e com a sombra.

Essa narrativa inicia com Isak em seu escritório, fazendo reflexões sobre sua vida, ao lado de um cachorro de porte aristocrata e sua postura corporal e fácies demonstra melancolia. Considera-se um velho meticuloso e difícil na convivência. Afastou-se do social e tem uma boa empregada Agda que cuida do seu cotidiano para sua sorte, durante 40 anos. Sua mulher é falecida há muitos anos. Tem uma mãe muito idosa e também vive só e permanece ativa. Tem um filho médico casado há 06 anos e não tiveram filhos.

Isak está se preparando para uma viajem à Lund, cidade onde ele irá receber um prêmio de Doutor Honoris Causa pelos cinqüenta anos de carreira como médico bacteriologista e professor exemplar.

Na véspera da viagem ao deitar, sonhou:

Durante sua caminhada matinal, ele entrava numa parte desconhecida da cidade e se perdia nas ruas desertas e solitárias com casas em ruínas num ambiente bem nebuloso.

Ele avista no alto de uma construção, pendurado na parede, um relógio grande sem ponteiros e faz uma conexão com seu relógio de bolso também sem ponteiros. Segue caminhando perdido e avista de costas um homem de chapéu e, sobretudo, semelhante a sua forma de se vestir. Vai em sua direção e o toca, aparecendo um homem sem boca e olhos como um fantasma bem ameaçador; em seguida sangra e se dissolve no chão.
O relógio badala. Aparece numa esquina uma carruagem fúnebre, com dois cavalos negros, carregando um caixão. Suas rodas ficam presas no lampião de luz da rua e se soltam, vindo na direção do sonhador, despedaçando-se na parede. A carruagem vira e o caixão abre e aparece o moribundo com as mãos abertas chamando Isak e seu rosto se assemelha ao dele.

O cenário do sonho são ruas desertas e casas em ruínas, que se refere ao espaço psíquico do sonhador nesse momento: deserto, solidão e destruição, instinto de morte prevalecendo.

Os personagens são ele mesmo, o homem sem face, e o defunto.

O relógio é um mecanismo que marca o tempo. Este no caso não pode mais fazê-lo porque está quebrado. Não há mais tempo. No inconsciente não existe tempo.

Através dos sonhos, podemos observar acontecimentos do passado, presente e futuro.

Ele acorda perplexo, amedrontado, abatido diante do sonho e decide cancelar a viajem de avião e dirigir seu próprio carro numa viagem longa de Estocolmo a Lund. Sua empregada se surpreende com a nova decisão, pois já estava preparada para acompanhá-lo. Marianne, sua nora, pede para ir junto e ele concorda.

Todas as imagens desse sonho expressam a morte.

O sonhador, um idoso, está finalizando um ciclo de sua vida, se reavaliando diante da grande travessia. O medo lhe impulsionou a assumir a direção de seu carro, se transformando em ato de coragem e teve a solidariedade da nora que também enfrentava uma crise crucial no casamento e precisava desabafar.

Acompanhar nossos sonhos traz elaborações importantes para nossa vida.

O personagem escutou seu sonho e quis contar para sua nora que não deu importância.

Durante a viagem, ela o acusou de egoísta e de que seu filho não o amava e que ela tem pena dele. Diante do abatimento, Isak decide revisitar a casa de veraneio de sua infância. Um local integrado com a natureza, defronte a um belíssimo lago com um píer de madeira. O espaço pitoresco é um canteiro de morangos, inspiração para o título do filme que se encontra no centro da vegetação frondosa.

Marianne vai se banhar no lago e Isak mergulha em suas lembranças de infância. Ele é o filho mais velho dos 10 irmãos. Sua mãe é uma mulher muito forte, autoritária, fria, dura, com feições masculinas. O pai parece ausente nas suas recordações.

Isak está bem sensível ao seu inconsciente e surgem lembranças fortes, como se fossem visões, com sua participação consciente.

Diz: “É possível que eu tivesse ficado sentimental e tivesse me interessado por coisas da minha infância”.

Essa frase demonstra que ele está saindo da razão lógica que era seu estilo de vida para observar suas emoções e intuições.

Lembranças:

Isak está submerso em seu mundo interior quando vê diante de si, no canteiro de morangos silvestres, Sara sua prima, antiga paixão de sua vida, colhendo morangos numa cesta para dar de presente ao tio que fazia aniversário. Sara é uma moça bela e sedutora; ele vê seu irmão se aproximando e a seduzindo, dando-lhe um beijo.

Ela está conflitada entre os dois irmãos que a amam, sendo Isak rejeitado, criando uma marca em sua alma, uma ferida que ele não superou.

As recordações continuam com o almoço do aniversário, com sua mãe bem autoritária dando ordens a todos e criticando as atitudes na mesa. Sara é acusada de flertar Sigfrid, irmão de Isak, e ela nega em soluços. Sai da mesa e uma das primas a acompanha e ela confessa que se sente culpada em relação à Isak que é honesto, fino, sensível, lê poesias, fala da vida após a morte e gosta de tocar piano.

O personagem era um homem muito sensível e foi se enrijecendo com o passar do tempo, se identificando com a persona para se defender de suas frustrações.

Ele recorda com muita dor, esses acontecimentos.

Sincronicamente, coincidência do destino, aparece uma jovem na sua frente, bem vivaz, de nome Sara e lhe pede carona. Ele conta que teve uma namorada chamada Sara que hoje tem 75 anos e casou com seu irmão e tem 06 filhos.

Sara está acompanhada de dois jovens e Isak concordou com a carona, estando agora com 05 passageiros. Ela falava e sorria com facilidade sendo noiva de um deles. Repete-se um triângulo amoroso no contexto.

Em uma curva, surge outro automóvel em alta velocidade em direção a eles, capotando e seus ocupantes, um casal, saem ilesos do carro, porém discutindo muito com sérias acusações. Isak os convida a levá-los em seu carro e a discussão continua, havendo agressões físicas.

A tensão do casal criou desarmonia para os viajantes e sua nora pediu que eles se retirassem.

A crise conjugal mobilizou os conflitos que todos estavam passando em relação aos seus afetos do passado e do presente, se tornando insuportável.

Isak abria seu coração à medida que incluía varias pessoas diferentes, num convívio íntimo de uma viagem de carro. Sua nora dividia com ele a direção do carro e era mais amável com todos.

Um dos rapazes era músico, tocava violão, falava de religião e de Deus, e iria ser pastor. O outro acreditava na ciência e iria ser médico. Durante o percurso, houve discussão e agressão física entre os dois. Cada um queria impor sua verdade. O que estava oculto nessa briga é a disputa por Sara que está confusa em sua decisão. Isac rememora seu conflito amoroso e também aspectos de sua personalidade dividida.

Os encontros que temos na vida são oportunidades e funcionam como espelhos de nossa alma pelos aspectos positivos ou sombrios da realidade.

O personagem Sara veio despertar em Isak, o amor Eros através da vida que ela irradiava com sua alegria espontânea e inocente de sua alma jovem e com desejo de amor ardente.

Isak despertou sua Anima, o arquétipo do feminino inconsciente no homem, responsável pela afetividade e expressão dos sentimentos, a partir da segunda metade da vida, onde a busca de dar um sentido à existência se torna mais intenso. Isak ficou mais vivo, participativo e amistoso. Ele redescobre o prazer e a alegria de viver.

A nora, também aspecto de sua anima, uma mulher inteligente que o confronta no seu masculino e ele aceita à medida que desenvolve afeto por ela e também a intenção de resgatar o filho. A relação foi se humanizando e havia uma harmonia entre eles.

Sara diz que é virgem e fuma cachimbo no carro; Isak aceita tudo e diz que os dois homens a amam. Vemos que ele está perdoando o passado e se reconciliando.

Chegam a Lund e vão ao posto de gasolina abastecer o carro. Um casal de jovens, donos do posto, o reconhece como médico da cidade que ajudou muita gente. Isak fica surpreso com o reconhecimento trazendo uma dose de otimismo e confiança para sua entrada nesta cidade onde exerceu a medicina com dedicação. O casal deu de presente a gasolina e disseram que o novo filho terá seu nome em sua homenagem. Isak diz que gostaria de ser o padrinho. Os gestos de afeto se multiplicam durante o percurso.

O grupo decide almoçar bem alegre, estando Isak bem integrado com os jovens, sorrindo e relaxado. Bebe vinho, fuma cachimbo e conta suas histórias nessa cidade como médico.

O rapaz imaginativo Anders cita um texto:

“Quando tal beleza se manifesta em cada veio da criação... como deve ser bom ser a primavera imortal.”

Victor diz que não deveriam mais discutir Deus ou Ciência nesta viagem.

Anders diz que “o homem vê a morte com medo.”

Perguntam a opinião do professor, que prefere ficar calado e diz:

“Onde está o amigo que procuro em toda parte?
O amanhecer é a hora da solidão e do carinho.
Quando o dia se vai...
Ainda não o encontrei.”

Anders diz:

“Um fogo invade meu coração,
Sinto sua presença.”

O Senhor é religioso?

Isak responde:

“Vejo sua Glória poderosa onde nascem as flores.
As flores têm perfume,
E as montanhas se elevam.”
Marianne diz:

“Seu amor está no ar que respiro.
Ouço sua voz sussurrando no vento do verão.”

Foi um almoço inspirado e a energia puer entusiasmada dos jovens se integra ao senex, o idoso onde prevalece a prudência e reflexão. Essa complementaridade proporcionou a transformação de todos.

Isak vai visitar sua mãe que reside na casa maior da cidade. Marianne o acompanha.

A mãe o recebe orgulhosa do título, o parabeniza, porém cria um constrangimento típico de sua personalidade ríspida ao pedir que a mulher se retire, imaginando que se trata da sua esposa já falecida há muito tempo, se referindo ao sofrimento que ela causou em toda a família. Trata-se de uma idosa amarga, ressentida, fria, calculista. É também um aspecto de sua anima mais importante, pois se trata de sua mãe, modelo da anima do homem.

Ela mostra uma caixa onde guarda recordações da família e Isak pede um porta-retrato onde ele está com a mãe e o irmão Sigfrid. Esse fato demonstra que ele já pode aceitar e perdoar o irmão fazendo parte do caminho da redenção antes de morrer.

Ela mostra uma boneca à sua nora que a carrega. Antes, ela a critica por não estar com o marido e não ter tido filhos. Ela exibe sua árvore genealógica com 10 filhos, 20 netos e 15 bisnetos. Diz que só lhe procuram para pedir dinheiro emprestado e estão ansiosos para receberem a herança e ela não morre.

É uma velha solitária e apesar de ter uma família numerosa, o único neto que a visita é Evald, marido de Marianne.

Na despedida, ela pede ao filho que leve um presente para o neto que vai fazer 50 anos, filho de Sigfrid e Sara. É um relógio de bolso sem ponteiros igual ao do sonho. Isak fica perplexo diante da coincidência já prenunciada no sonho revelando acontecimentos futuros.
Despedem-se da gélida anciã e encontram os dois rapazes próximos ao carro lutando fisicamente pela discussão de idéias entre religião e ciência.

A viagem prossegue e Isak está muito cansado e sonha dentro do carro.

“Vê no céu uma revoada de pássaros negros e logo em seguida avista o canteiro de morangos e Sara reaparece com um espelho pedindo que ele se veja como um velho assustado que logo morrerá, e ela tem uma vida pela frente. Pede desculpas se o ofendeu. Ele aceita suas agressões e ela coloca novamente o espelho em sua frente pedindo que não desvie o olhar e informa que vai se casar com seu irmão e que ele tente sorrir.

Como dói, ele diz. Ela se despede desqualificando-o mais ainda, correndo no campo em direção a um berço onde estava seu filho e o acalenta. “Estou aqui com você; não tenha medo”. Sara e o filho entram na casa. Repete-se a revoada dos pássaros e Isak vê através de uma janela Sara e seu irmão se encontrando amorosamente, fazendo um drinque numa refeição que parece uma celebração. A lua cheia aparece no céu. Isak olha para o berço vazio, vê a cena amorosa e olha para o céu como se implorasse algo.

Bate com insistência numa porta e se fere com um prego. Aparece um homem que o reconhece como Prof. Borg e o manda entrar. É um inspetor que vai testar sua capacidade profissional. Abre-se uma nova porta e caminham num longo corredor em direção a uma nova porta, onde existe um auditório e seus companheiros de viagem estão sentados.

O inspetor o interroga se trouxe seu livro e manda que ele identifique uma bactéria no microscópio. Ele não consegue ver nada. O inspetor diz que o primeiro dever de um médico é pedir perdão. Ele indaga se foi acusado de culpa e pede clemência durante o exame. O inspetor pede que ele faça o diagnóstico de uma paciente e ele diz que está morta. O rosto é semelhante à mulher do casal que ele deu carona; ela ri muito alto, zombando de si.

A conclusão do exame é que ele é incompetente.
Sua esposa faz acusações e ele terá que confrontá-la.

Andam por uma floresta e aparece sua mulher acompanhada por um homem que a toma nos braços com violência e a possui. O inspetor mostra que ele guardará essa imagem.
A mulher dialoga com seu amante e acusa o marido de frio e sente culpa de traí-lo.

O inspetor indaga: Percebe o silêncio?
Tudo se foi.
Qual será a pena?
A Solidão.

Isak diz para sua nora ao acordar que sonhou e “estou morto apesar de vivo.”
Ela está mais receptiva para escutá-lo.

Continuam suas elaborações através dos sonhos, aparecendo Sara um aspecto de anima cruel o desqualificando e rompendo sua ilusão amorosa, mostrando sua real escolha.

O espelho simboliza a possibilidade de enxergar a verdade.

A criança é um símbolo do Self e pode estar representando o acolhimento de uma nova atitude. O sonhador vê o encontro amoroso de Sara com seu marido e filho. É provável que ele esteja incorporando uma nova visão com aceitação da realidade. Um ciclo se fecha e o inconsciente lhe transmite mensagens para que o consciente se transforme e se recrie.

O inspetor é uma parte sua que julga e pune seus atos, desqualifica e lhe impõe um isolamento. Isak está reavaliando sua consciência e é muito rigoroso. Os personagens que assistem seu exame também são aspectos seus que estão lhe observando. O seu casamento e a morte da esposa estão passando por novas investigações.

Ele comenta seu sonho com a nora e esta confessa que seu marido também está morto vivo e tem apenas 38 anos.

Marianne recorda um diálogo com Evald dentro do carro onde informa que está grávida e este abomina a idéia de ter um filho. Ela diz que vai assumi-lo. Ele sai do carro numa tempestade e pede que ela opte entre ele e o filho. Diz: “Eu fui um filho indesejado de um casamento infernal; acho essa vida, um lixo”. Retornam ao carro e ele confessa que o necessário da vida é morrer. O sogro a ouve atentamente e diz que ela pode fumar e indaga como poderia ajudá-los. Ela responde que não quer continuar vivendo desse jeito. Esse diálogo remete ao Princípio de Thanatos, que simboliza destruição.

Nesse mesmo instante, os jovens aparecem na janela do carro bem alegres, cantando, e oferecem um ramalhete de flores do campo a Isak comemorando sua vitória como pessoa bem sucedida.

Vemos nessa cena a atitude oposta de Thanatos a Eros que é desejo de viver, construir, criar.

Estão chegando à reta final da viagem e são recebidos por Evald e Agda que hospedam os rapazes que irão assistir à cerimônia quase fúnebre tal a formalidade e as vestes negras dos participantes, desfilando para receber o prêmio numa catedral. Ele é coroado como um rei, simbolizando poder máximo que um ser humano pode alcançar. Os jovens acompanham da rua sorrindo, totalmente informais.

Isak pensa nos acontecimentos do dia e decide que irá escrever tudo que observou e vivenciou dizendo que havia uma “casualidade memorável” nos fatos.

Recolhe-se para dormir bem cansado e pede a Agda para se chamarem pelos seus nomes, tentando humanizar e criar intimidade na relação e esta se recusa dizendo que ele deve se comportar na idade dele e mantém o limite de empregada fiel que o serve com muito amor.

Os rapazes fazem uma serenata de despedida e Sara declara que o ama muito “hoje, amanhã e sempre”.

Essa declaração de Sara no presente é essencial ajudando na cicatrização do seu passado. É um aspecto de anima positiva.

Evald e Marianne se preparam para ir a um baile e o salto do sapato quebra e ela volta para trocá-lo. Observamos um simbolismo de mudança de base representada pelos sapatos.

Isak chama seu filho para um diálogo e pergunta sobre suas decisões em relação ao casamento e ele diz que não pode viver sem ela.

Marianne agradece ao sogro pela companhia e diz que gosta muito dele, que retribui o afeto com abraço e carinho.

Isak pensa deitado em sua cama: “Quando fico preocupado ou triste, tento relaxar com as lembranças de minha infância”.

Aparece Sara no local comum de encontro e diz que não sobrou nenhum morango. Titia quer que eu procure seu pai.

Ele recorda a preparação para velejar na ilha. Diz que não encontrou nem o pai nem a mãe. Sara se oferece para procurá-los. Vão pegar o veleiro no píer; andam de mãos dadas no campo aberto de flores, bem luminoso. De longe, avistam o pai e a mãe. O pai pesca e ela está mais distante, sentada defronte ao lago.

Através dessas últimas lembranças, Isak reintegra o masculino e o feminino dentro de si, o arquétipo do pai e da mãe.

Ele acorda sorrindo com seu olhar de idoso reconciliado e em paz com sua vida.

Isak faz uma ressignificação de sua história com a ajuda dos sonhos e colaboração do destino colocando essas pessoas em seu caminho para lhe ajudarem a resgatar o amor que estava escondido numa persona austera, rígida, fria e uma sombra anti-social, mal humorado, pesado, sem desejo de viver, com o coração fechado. Sua afetividade foi sendo resgatada através do reconhecimento e aceitação de sua generosidade e compaixão como médico e ser humano, seu amor pela natureza que foi expresso através de poemas, sua sensibilidade pela arte possibilitando abertura para compartilhar a vida. Ele se reencontra com um nível mais profundo de sua consciência, a anima , ponte para o self, arquétipo da união, responsável pela integração dos vários aspectos de sua personalidade.

Agora ele já pode fazer a grande travessia com mais confiança na vida e não temer a morte.

Cinema no Consultório
realizado em 11/11/2010.

Focalizadora: Verusa Silveira
 (Coordenadora do Núcleo de Estudos Junguianos BA)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Cinema no Consultório, última sessão do ano!

“MORANGOS SILVESTRES”

- Uma obra-prima de Ingmar Bergman -
Interpretação à luz da Psicologia Analítica de Carl G. Jung.



Focalizadoras: Marcia Hita - Médica, Psicoterapeuta Junguiana
Verusa Silveira - Psiquiatra,  Psicoterapeuta Junguiana

Dia: 11 de novembro (quinta-feira) - Hora: 19h

Local: R. Ewerton Visco, 324, Ed. Holding Empresariaol, sl. 1107.
(atrás do Shopping Sumaré)
Investimento: R$ 15,00  
Tel: 71 3271-3640/ 9201-0250/ 9972-4889

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O Deus Mercúrio.

Os símbolos são as manifestações exteriores dos arquétipos.

É através da análise e da interpretação de sonhos, símbolos, fantasias, visões, mitos e da arte é que se pode chegar a conhecer alguma coisa do inconsciente coletivo.

O mito é a ponte inevitável entre o inconsciente e o consciente.

O Deus Mercúrio representado nessa imagem abaixo é o intérprete da vontade dos deuses. Ele se apresenta com um chapéu de formato de asas e sandálias também com asas - representando o voo da imaginação.

Segura um bastão que representa a cura com duas serpentes entrelaçadas - o caduceu é um emblema universal da ciência médica.

É um Deus alquímico, pagão, sendo responsável pelas transformações do chumbo em ouro, nos processos de cura. No processo de individuação, o ser humano passa por essa transformação na busca do Self (centro interno), através do Ego.
 
Mércurio é hermafrodita, contendo o masculino e o feminino e os 4 elementos da natureza: terra, água, ar e fogo, que são as funções de orientação da consciência: ação, emoção, pensamento e intuição.

Segundo a lenda, Mercúrio, quando ainda era bebê, saiu pelo mundo e roubou os rebanhos de Admeto que Apolo estava guardando. Apagou os traços do roubo, subornou as testemunhas, sacrificou duas novilhas aos deuses, matou uma tartaruga da qual fez uma lira, escondeu o gado e voltou ao berço como se nada tivesse acontecido. Já começou, então, a mostrar sua rapidez, versatilidade, diversidade e astúcia.

 Apolo descobriu o roubo, e como tinha o dom da adivinhação, acusou Mercúrio. Os deuses não acreditaram, porque, afinal, Mercúrio era um bebê. Mas Apolo levou-o a Zeus que o obrigou a não mentir. Mercúrio não mente, também não diz a verdade completa. Para conquistar Apolo, Mercúrio tocou a lira feita da tartaruga, encantando-o. Então Apolo trocou os rebanhos pela lira.
 
Observamos o lado sombrio da realidade através desse mito que não esclarece por completo a sua ação. Vemos a importância do arquétipo da sombra em nossa busca humana de completude.

Mercúrio é o Deus da comunicação, do poder da palavra, dos negócios e protetor dos viajantes.

 


Verusa Silveira - Psiquiatra e Psicoterapeuta Junguiana.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Avatar - A mudança é pessoal.

Essa é uma interpretação com imagens do filme "Avatar", com foco na espiritualidade.

Avatar   - El cambio es personal


(Originado por Patrícia Rodriguez)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Prezados colegas, clientes e amigos,

Estamos compartilhando a síntese do trabalho que apresentei no Congresso Internacional de Psicologia Transpessoal, com o tema Felicidade Autêntica, de 04 a 07 de setembro, em Águas de Lindóia, em São Paulo.

Foi um encontro de mentes brilhantes como Jean Yves Leloup, filósofo e teólogo, Roberto Crema, psicólogo e reitor da UNIPAZ, Amit Goswami, Físico quântico indiano do filme "Quem somos nós"?, a psiquiatra indiana e estudiosa do Yoga, Uma Krishnamurti, além de outras personalidades bem marcantes nessa possibilidade integrativa entre ciência, tradições espirituais, arte, várias antropologias expressando uma consciência multidimensional, unindo Ocidente e Oriente.

O Prof. Pierre Weil, introdutor da Psicologia Transpessoal no Brasil e criador da UNIPAZ, foi homenageado estando sua obra em exposicão e muitas fotos.

O Dr. Jung esteve citado pelos palestrantes com frequência, inclusive o físico quântico Amit, que falou da integração da Física com a Psicologia Analítica, já prenunciada por Jung no encontro com grandes físicos da época, que buscavam um novo paradigma. O Livro Vermelho de Jung, recentemente traduzido e publicado, foi discutido, com suas visões e imagens internas em seu confronto com o inconsciente.

O congresso foi finalizado com uma passeata pela Paz Mundial em homenagem também a Pierre Weil.

Vivemos momentos de Felicidade Autêntica e agradecemos aos organizadores, em especial, a psicóloga Vera Saldanha, presidente da ALUBRAT.

Abraços,
Verusa


Sonhos e Imaginação Criadora


Toda pessoa precisa de seus sonhos e fantasias para superar sua vida cotidiana.
A imaginação é um espaço de liberdade e condição prévia para transformações e manifestações criativas. Ela é condição básica para o trabalho criativo em geral, mas também para a vivência transpessoal.

Nossa proposta é vivenciar imagens arquetípicas de cura que trazem felicidade, bem-estar, beleza, poesia e criatividade, com foco no sonhar acordado ou devaneio como técnica de imaginação onde se usa a força do consciente através da vontade e da imaginação para realização de metas pessoais e transcendência dos limites cotidianos da vida.

O princípio que rege essa técnica é que o ser humano é o criador e construtor de sua vida, podendo interferir no seu inconsciente através do seu pensamento consciente e construtivo.

 O ser humano depende do poder da imaginação e de seus símbolos para suas representações literárias, pictóricas e todas as atividades artísticas, filosóficas e religiosas.

Nosso método foi criado com base na Psicologia Analítica e Transpessoal Junguiana, a partir dos conceitos de arquétipo, símbolo, sonhos e imaginação ativa. Propomos o diálogo entre o ego e o inconsciente através de suas imagens, com objetivo de criar uma relação com o self, centro organizador e transpessoal da consciência.

Observamos também as imagens que aparecem durante o sono, nos sonhos noturnos.

Escolhemos duas imagens arquetípicas para representação da divindade em sua natureza masculina e feminina para exercício da imaginação. 


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Mente Ampliada de Ruppert Sheldrake.

Seminário no CIT em 11/08/2010.

Livro: A Revolução da Consciência. Novas descobertas sobre a mente no século 21. Francisco Di Biase e Richard Amoroso

Escolhi focalizar os animais através do conceito de campos mórficos de Sheldrake.

A minha escolha se deve ao desejo de querer compartilhar as experiências vividas com os gatos, principalmente com meu gato de estimação Apolo de Ganesha, que completou em 02 de agosto desse ano, 14 anos sob o signo de Leão, assemelhando-se a um leãozinho, de cor ruiva com olhos de âmbar, pesando 07 kg, de raça persa, filho de americanos Black Jack e Miss Fuffi de Ganesha.

O meu primeiro contato com ele foi logo após seu nascimento, junto aos outros irmãos, todos lindos, sendo difícil escolher. O meu critério foi pela cor ruiva avermelhada, red tabby de sua linhagem universal ou por uma empatia sutil.

Para minha surpresa, a dona do gatil era cunhada do meu cunhado, havendo, portanto parentesco; cheguei até lá através de um anúncio de jornal.

Nossa primeira experiência é que fui buscá-lo na data combinada e ele desapareceu deixando a dona da casa aflita imaginando que ele pudesse ter saído quando ela chegou com as compras e a porta ficou aberta por longo tempo. Ficamos conversando e recebo a informação que ele ainda mamava. Naquele instante, compreendi que ele ainda não estava preparado para sair de junto de sua mãe e que era um gato esperto e muito inteligente. Esperei mais duas semanas para adotá-lo e assim foi em setembro de 1996.

Essa história iniciou com um presente que recebi no dia das mães, de uma amiga, uma linda gata persa, Morgana, toda branca com olhos rosados e aura também rosada. Tinha 10 meses e vivia numa casa que havia nascido um bebê e ela subia no berço e corria atrás das galinhas no quintal. Era muito arisca, tinha olhos assustados e foram muitos meses para amansá-la. Entrou no cio e tive que levá-la para cruzar com um belo gato e nasceram 05 filhotes.

Enquanto isso, Apolo se integrou à sua nova família e queria mamar em Morgana com freqüência junto à ninhada que se reunia em círculo logo após o nascimento. Observei esse fenômeno natural de auto preservação do reino animal. O Círculo é o símbolo da totalidade sendo a origem do Ser.

Ajudei Morgana a parir que estava assustada em sua primeira ninhada; um deles morreu. Vivi essa experiência ao seu lado dando suporte como parteira e me reconectei aos instintos maternos. Imaginei que os gatos trariam um aprendizado do meu lado animal tão importante para me sentir mais completa, feminina, terna e intuitiva. Apaixonei-me pela dupla e tão logo houvesse o desmame, daria os gatinhos. Morgana se deprimiu com a saída dos filhotes e tive de cuidá-la, com muita paciência e amor; decidi castrar o casal.

Apolo crescia bem afinado com meu temperamento e havia uma empatia extraordinária entre nós, no silêncio da comunicação amorosa, não escondendo minha preferência por esse animal que me seduzia por sua beleza, mansidão, concentração, higiene, disciplina, muitos atributos do deus grego da cura e da boa sorte da Índia.

Após um ano, adotei Miguel de cor azulada e formou o trio de guardiões angélicos.

Em pouco tempo, passei a ter crises alérgicas de sinusite com freqüência acusando nos testes alergia aos pelos de gato. Fiz a escolha dolorosa de me afastar dos meus queridos por ordem médica. Tratei de procurar uma nova família para Morgana e Miguel. Deixei Apolo como filho único e tentei me curar das alergias. A médica me advertiu dos danos á minha saúde e eu tive que escolher deixar Apolo ir também.

Foi um sofrimento de alma que me fazia chorar sempre e sonhar encontrando-me com ele em várias situações; creio que nunca nos separamos. A conexão que criamos se estendeu como fios de um elástico que superou separações no tempo e no espaço.

Relaciono essa conexão com campos mórficos desde o instante em que o escolhi e vice versa naquele gatil de pessoas conhecidas. Fomos atraídos para esse campo de energia para vivermos juntos como destino.

Sheldrake sugere que a comunicação telepática depende de laços entre pessoas e animais que são verdadeiras conexões que estão ligados através de campos chamados mórficos. “O campo do corpo e o próprio corpo, normalmente são relacionados da mesma maneira que um campo magnético é relacionado com um imã. O campo magnético está dentro do imã e também ao seu redor; mexendo-se o imã, o campo se mexe.”

O que Sheldrake chamou de campo é nosso Corpo Energético Invisível ou Sutil, constituído de vários campos, que formam nossa consciência transdimensional. A ciência atual ainda não considera o campo humano como real. Sua visão explicativa é de causa e efeito, considerando a matéria e a mente como produto do cérebro físico.

A nossa separação durou 02 anos e eu pressentia até quando ele adoecia e seu dono me ligava e pedia orientação; mesmo sabendo que devia me desapegar, uma força maior de pensamento e sentimento nos conectava através de sonhos, no inconsciente, e no mundo consciente.

A consciência envolve uma dimensão bem maior que nossa percepção consciente reduzida pode alcançar, pois o inconsciente é ilimitado e infinito.

Apolo retornou em função da mudança de seu novo dono para outro estado. Fui buscá-lo e criei uma ponte com minha filha deixando-o em sua casa, emprestado. Isso gerou uma briga, pois ela também se apaixonou por ele e assim, o havia perdido para sempre.

Vanessa foi morar no Rio de Janeiro e o devolveu muito sentida e o acolhi jurando que iria superar as alergias. Voltamos a dividir o mesmo espaço e reconhecer nossas afinidades como animal e humano.

Existe uma hipótese que, a depender das ligações estabelecidas com os animais, os campos mórficos são esticados e não rompidos, quando uma pessoa parte e deixa o animal para trás. Permanecemos interligados a animais e pessoas aos quais somos próximos, até mesmo quando estamos distantes, por afinidades de campo.

Na visão de Sheldrake, no fenômeno da telepatia, é melhor estudar animais do que pessoas. Cães, gatos, ou outros animais podem captar as intenções de seus donos até a grandes distâncias. O autor acha que esses campos têm uma espécie de memória, que é chamada ressonância mórfica, que dá um memória coletiva para cada espécie.

Podemos fazer uma analogia com o inconsciente coletivo que traz a memória da herança universal e seus arquétipos como matrizes de nossa origem comum a todos em sua forma oculta ou inconsciente. Quando acessamos essas representações simbólicas, entramos nesse reino mítico, imaginativo e criativo, de poderes psíquicos que vão além da mente racional e nos coloca diante da intuição e de fenômenos de sincronicidade que são naturais quando consideramos a ligação inevitável entre o observador e o objeto da observação, dissolvendo a separação entre sujeito e objeto. O cientista participa da realidade que está estudando. O mundo exterior e interior se unem. É o que Jung chama de “Unus Mundus”, visão unitária do mundo, o mandala representado pelo círculo.

A idéia filosófica alquímica é de que o ser humano é um micro cosmos estando integrado ao céu e a terra, aos reinos da natureza mineral, vegetal, animal, humano, angélico. É a busca atual do ser humano de vivenciar experiências transpessoais.

Voltando aos gatos, que é o foco de nosso trabalho, com Apolo que considero um animal curador ou coterapeuta pelas suas qualidades de percepção extra sensorial e delicadeza tornando-o singular e belo por natureza.

Os gatos parecem conseguir o que querem de seus donos por meios sutis; são introvertidos, silenciosos, calmos, se comunicam pelo olhar profundo e pelo toque como massagem se conectando com pontos de tensão trazendo alívio e conforto. São independentes e afetuosos. Têm um talento especial para detectar energias negativas dos lugares e transformar, como purificadores, às vezes ficando doentes pela carga que recebem, principalmente de seus donos.

No Antigo Egito os gatos eram considerados sagrados e cultuados como deuses. O arquétipo era representado pela deusa Bastet, cabeça de gato e corpo de mulher, como uma entidade benévola. Outra representação arquetípica dos felinos é a deusa Sekhmet, poderosa, guerreira, violenta, pois expressa sua raiva. Sua cabeça é de leoa e o corpo delicado de mulher. Dizem que uma se transforma em outra a depender da necessidade.

Os gatos são animais lunares, da noite e, portanto representam o inconsciente. Quando aparecem em sonhos, estão ligados ao sonhador pelo seu aspecto feminino. Representa a anima, a feminilidade inconsciente do homem.

Dedico esse trabalho a Apolo de Ganesha, agradecendo a convivência diária harmoniosa e ajuda especial que ele me dá, para que meu coração continue aberto através da declaração de amor que ele me inspira, diariamente. “Te amo Fofinho”.

Verusa Silveira: Médica Psiquiatra e Psicoterapeuta Junguiana.

Bibliografia:
Nise da Silveira, Gatos, a emoção de lidar.
Kate Solisti-Mattelon, Conversando com os gatos.
Rupert Sheldrake, Cães sabem quando seus donos estão chegando.
Francisco Di Biase e Richard Amoroso (organizadores), A Revolução da Consciência.
Capítulo 7, A mente ampliada de Ruppert Sheldrake.