sábado, 16 de abril de 2011


 O Significado da Páscoa



Estamos às vésperas da Páscoa, uma Festa carregada de magia e  espiritualidade.

Durante esse período, crianças, adolescentes e muitos adultos ficam hipnotizados pela atração principal da festa: os Ovos de Páscoa que lotam as prateleiras das lojas e supermercados.

Mas, e o verdadeiro espírito da Páscoa? Quais são as origens desta Festa e a de seus símbolos? 

A Páscoa é uma das datas comemorativas mais importantes entre as culturas ocidentais. O termo “Páscoa” tem uma origem religiosa que vem do latim Pascae e do grego Paska e encontra entre os hebreus seu mais remoto significado; Pesach, que quer dizer Passagem.
 
 A Páscoa é, portanto uma Festa de Passagem...  
 
 Na filosofia pagã, o Homem e a Natureza são indissociáveis. Celebrar os ciclos, ou os seus vários momentos, era um modo de mostrar à Natureza (aos seus deuses) a gratidão de expressar a alegria pelos dons recebidos e, em vários momentos, devolver à Terra aquilo que por ela era proporcionado. Magicamente, ofertava-se à Natureza o fruto do trabalho, para garantir que este seria sempre colhido, que o equilíbrio natural se preservaria e o suceder das fases seria contínuo. Por isso as festas coincidiam com as principais mudanças da Natureza como o nascer e o por do sol ou o início das estações (equinócios de primavera e outono e solstícios de verão e inverno) que eram assim ritualizadas e constituíam as Festas de Passagem.

 Informações Históricas relatam que entre alguns povos pré-cristãos da Europa Ocidental, há milhares de anos, já se celebrava uma Festa de Passagem no Equinócio de Primavera.

 Os Celtas foram um destes povos que comemoravam nesta época, uma festa chamada Ostara em homenagem a Deusa Eostre, divindade saxônica da fertilidade, cujos símbolos eram o ovo e o coelho. Era um festival de plantio, onde se pediam as bênçãos para a germinação das sementes recém-plantadas, sendo o momento do acasalamento dos animais. Simbolicamente a Deusa em sua fase Donzela e o Jovem vigoroso Deus estão plenos de força e maturidade sexuais estando prontos para o Hierogamos. 

 A Páscoa Judaica, é uma data com um significado muito importante, pois marca a saída, por volta de 1250a.C, deste povo do Egito, onde foram aprisionados pelos faraós durante vários anos. Está relacionada com a passagem dos hebreus, liderados por Moisés, pelo Mar Vermelho e pelo deserto. 

 Os primeiros Cristãos comemoravam no Equinócio de Primavera, a Páscoa ou Ressureição de Jesus. Hoje a data é compartilhada em todo o planeta e é por isso que os países como o Brasil que estão no Hemisfério Sul a festeja no Equinócio de Outono.  

 Na Páscoa, ou Semana Santa, como se convencionou chamar, se rememora os  últimos sete dias da vida terrena de Jesus. Tem início com a sua entrada em Jerusalém, no domingo de Ramos, passando pela Santa Ceia na sexta-feira, seguida por todos os acontecimentos da prisão, tortura, crucificação, morte e passagem para o mundo espiritual. No Domingo de Páscoa, três dias depois, Jesus reaparece em Corpo Espiritual ou Corpo de Luz, para alguns dos apóstolos, ressuscitando.

Ressureição significa entrar na dimensão eterna do nosso SER, do Si-mesmo  ou Arquétipo do Self, centro profundo e transpessoal.

 Jesus é o Arquétipo da Grande Sintese, do Humano e do Divino. Da união das polaridades, do encontro do sofrimento e da morte com a Ressureição. É preciso encontrar Jesus no Caminho do Meio. Esse é o trabalho de toda nossa vida minuto após minuto. 

 Na Psicologia Junguiana, a Jornada de Vida de Jesus é simbolisado pelo Processo de Individuação, que significa o desenvolvimento espiritual de um Ser humano consciente de sua trajetória, em suas várias fases do nascimente até a morte.

 A Páscoa tem o sentido de nascimento, (nosso próprio nascimento) ou renascimento para algo novo, melhor. É uma festa que celebra a esperança em relação a vida, a possibilidade de um novo começo, um recomeço.

É a época perfeita para as mudanças verdadeiras, internas e externas, transformando aquilo que não queremos mais em nós ou em nossa vida. Fazer uma reciclagem do nosso lixo emocional e das atitudes e crenças que já estão obsoletas dentro de nossa Psique, para sermos melhores e mais inteiros. Ousar transgredir e ir além de nós mesmos para amadurecer e expandir a Consciência. Morrer e renascer, fechando ciclos e abrindo novos em nome da Evolução.

  A Páscoa é cercada de vários símbolos que lhe conferem essa atmosfera de sinais de mudanças e renovação.

 O Coelho no antigo Egito simbolizava o nascimento, e estava relacionado à Lua, o que fez com que apesar de ser um mamífero e, por conseguinte não botar ovos, assumisse o papel de reprodutor e entregador dos ovos de Páscoa tanto pela sua rapidez quanto pela capacidade de reprodução. Símbolo da fertilidade remete a preservação da espécie, ao nascimento e a esperança de novas vidas.

 O ovo está relacionado à origem, princípio, nascimento e germe da vida, é símbolo de fecundidade. Entre os cristãos é símbolo da ressurreição. 

 Páscoa é a passagem para novos ciclos de vida, com suas mortes psíquicas e aprendizagens, vivências e experiências. 

É Renovação, Liberdade, Fertilidade, Ressurreição, em síntese, a comemoração da VIDA!
 

“NÃO SOMOS SERES HUMANOS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA  ESPIRITUAL,  SOMOS SERES ESPIRITUAIS PASSANDO POR UMA EXPERIÊNCIA HUMANA”.




Feliz Vida para Você 

  Bibliografia:
 . Schmidt, Silvia : A Páscoa é a passagem pela vida
 . Duarte, Jan : A Celebração dos Ciclos Naturais
 . Leloup, Jean-Yves: Caminhos da realização
 . Belotti,Sonia: Aproveite a Páscoa para mudar 


Márcia Hita: Médica e Psicoterapeuta Junguiana, Membro do Núcleo de Estudos Junguianos da Bahia e do CIT: Colégio Internacional dos Terapeutas.

quarta-feira, 2 de março de 2011

O Carnaval


“- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.”

O Carnaval Baiano vem sendo considerado a maior Festa Popular do Mundo... A cada ano, milhares de turistas de todas as partes do Brasil e do planeta aportam em terras soteropolitanas para conhecer, prestigiar e aproveitar a festa.
Apesar das grandes mudanças sofridas nos últimos anos: o fim dos bailes de Carnaval nos Clubes, o surgimento dos Camarotes que nada mais são do que espaços elitizados para a folia e o conseqüente esmagamento do folião do povo, que fica sem ter onde brincar, o Carnaval baiano segue empolgando e arrastando multidões.
Aqui poderíamos colocar como motivadores sinérgicos de tal encantamento a singularidade do Povo Baiano com sua riqueza de raízes culturais (africanas, indígenas e portuguesas) o que confere um caráter único em seu swing e sua música.
Mas afinal, o que atrai tanto as pessoas? Onde estão as origens desta Festa?
As origens do Carnaval são obscuras e longínquas. Sua memória vem do Inconsciente Coletivo dos povos. Os primeiros indícios  surgiram dos cultos agrários no tempo da descoberta da agricultura.
 O berço do carnaval está no IV milênio a.C., no Egito quando o homem começou a entrar no reino da utopia através da comemoração. No momento das festas, ele se desligava das coisas ruins que concretamente tinham ido embora (o inverno que o prendia aos abrigos) e saudava o que lhe parecia um bem (a entrada da primavera, o término das enchentes do rio Nilo, o nascer e o pôr do sol) com danças e cânticos para espantar as forças negativas que prejudicavam o plantio. Esse é o modelo mais simples de Carnaval e consta de danças e cânticos em torno de fogueiras, incorporando-se aos festejos máscaras e adereços e, à medida que a sociedade evoluia para a divisão de classes: orgias, libertinagens e o culto ao corpo.  
Como exemplo desse gênero de festividades temos a festa da deusa Ísis e do Boi Ápis no Egito, as festas da deusa da fecundidade Naita e de Mitra, dos deuses dos pastores na Pérsia, a festa da deusa da fecundidade Astartéia na Fenícia e a festa da grande Mãe em Creta.
Entre os séculos VII a.C. e VI d.C. surge o Carnaval Pagão, que começa quando se oficializa o culto do deus Dionísio na Grécia que se expandiu para Roma, onde foi chamado de Baco. Com a sociedade já organizada em castas e rígidas hierarquias, nitidamente separados por classes (nobres, camponeses e escravos) acentuam-se as libertinagens, licenciosidades, provocadas ao que se supõem, pela necessidade de válvulas de escape. Sexo, bebidas e orgias incorporam-se, definitivamente, às festas que, juntamente com o elemento processional (desfile) e a inversão de classes, compõem o modelo que alguns autores consideram como o fulcro estético e etimológico do carnaval.
Deus da cultura, do vinho e da figueira, ora simbolizado pela hera e pelos pinheiros, ora representado pelo bode, Dioniso, o deus da transformação e da metamorfose, todos os anos chegava à Grécia, aos primeiros raios de sol da primavera acompanhado de um séquito de sátiros e ninfas, sendo saudado pelos fiéis com música, danças, algazarras, vinhos, sexo e também violência, que por vezes terminava em tragédia. Uma multidão de mascarados seguiam o cortejo até o templo onde se consumava o hierogamos (o casamento do Deus com a polis inteira a procura da fecundação).
 As Bacantes, sacerdotisas que celebravam os mistérios do culto a  Baco, invadiam as ruas de Roma, dançando, soltando gritos estridentes e atraindo adeptos em número crescente. Elas causaram tantas desordens e escândalos que o Senado Romano proibiu as Bacanais, em 186 a.C..
Em Roma havia também as Saturnálias em honra a Saturno, deus da agricultura, identificado como Cronos pelos gregos. Saturno chegava com os primeiros sopros do calor da primavera e era saudado com festas e um período de liberação das convenções sociais. Nesse período os escravos tomavam os lugares dos senhores e saiam às ruas para comemorar a liberdade e a igualdade entre os homens, cantando e se divertindo em grande desordem. Não funcionavam as escolas e os tribunais e havia o costume das casas serem lavadas após os excessos libertários. Em continuação  seguiam-se as Lupercais, em homenagem ao deus Pã, que tinham as mesmas características das Saturnálias.
O Carnaval Cristão inicia o seu desenvolvimento quando a Igreja Católica oficializa o Carnaval, em 590 d.C., e  adquire suas características básicas, na Renascença. Expandindo-se por toda a Europa (principalmente nas cidades italianas Veneza e Florença, e também à França), chega a Portugal onde é conhecido como o Entrudo. A festa então é exportada para o Brasil, este ainda como colônia portuguesa.
 Acontecia entre o Sábado Gordo e a quarta-feira de Cinzas, na abertura da primavera, e era realizado entre famílias amigas ou pessoas conhecidas. Ganhando mais tarde as ruas, envolvendo desconhecidos, atingidos por baldes de água, farinha, cinzas ou lama. Tinha um caráter de trote, humor e fanfarra. O Entrudo tornou-se uma das mais antigas formas de brincar o Carnaval. O primeiro relato que se tem dele remonta ao Pernambuco de 1553.
De lá para cá muita coisa mudou mais o fascínio pelo carnaval continua.
 O Carnaval é um rito coletivo onde foliões fantasiados, mascarados ou não, querem transformar-se em um “outro”, em busca da realização de desejos reprimidos. Seria uma trégua, um alívio da hipocrisia social e do medo do corpo numa espécie de efeito catártico regulador do equilíbrio social.
 É uma tentativa das pessoas de se libertarem de suas Máscaras aprisionantes, despindo-se dos seus papéis sociais condicionantes e normóticos.
  Sem as máscaras os instintos se liberam e aparece o arquétipo da Sombra: aquelas características  que queremos esconder ou negar dentro de nós e que são considerados inadequados na moral vigente.
 É importante salientar que a intenção do folião em sua atitude transgressora, pode gerar efeitos construtivos ou destrutivos, a depender da canalização dos instintos.
  A liberação da sexualidade e a desrepressão do corpo, desde que a afetividade esteja presente, gera vitalidade, alegria de viver, musicalidade, poesia, beleza, criatividade e arte.
  Porém, o Carnaval acaba sendo visto como uma salvação mesmo que curta e ilusória e a catarse  acontece muitas vezes de forma extrapolada gerando excessos e violência desnecessárias.
  A psique humana é polar e nela coexistem forças antagônicas que precisam ser equilibradas para um viver mais harmonioso e adequado. Essa busca é algo incessante e natural dentro de nós e constitui uma das metas para a evolução e crescimento humano.
 O Carnaval é como vimos desde sua origem uma expressão do Inconsciente Coletivo, uma necessidade humana de união e igualdade entre as raças e os povos. Cantando e dançando juntos, a multidão se transforma em um único corpo, em uma única voz , num só coração e ritmo em momentos de êxtase coletivo.



“Atrás do Trio Elétrico só não vai quem já morreu”


Referência Bibliográfica: A História do Carnaval: Dr. Hiram Araújo


Márcia Hita: Médica e Psicoterapeuta Junguiana, membro do Núcleo de Estudos Junguianos da Bahia e do CIT, Colégio Internacional dos Terapeutas.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A festa da Rainha do Mar, 2 de fevereiro!

O Núcleo de Estudos Junguianos da Bahia homenageia "2 de fevereiro", data  mágica na Bahia de Todos os Santos, celebração da Rainha do Mar, reunindo pessoas de todas as classes, idades e crenças para reverenciar a Grande Mãe.

Nesse dia, todos se mobilizam para ofertar-lhe presentes, agradecer suas bençãos e renovar pedidos de cura e realização de sonhos.

É um arquétipo que representa a divindade feminina, simbolizada pelo mar e pela lua. Protetora dos pescadores e dos navegantes.

A Deusa Yemanjá é a Deusa do Amor, da Paixão e da Fertilidade. É conhecida por vários nomes em culturas diferentes e uma de suas representações é a Sereia. No Egito, é chamada Isis. Em Roma, é conhecida por Vênus. Na Grécia, é Afrodite. No Brasil, Yemanjá ou Oxum, Mãe das águas salgadas e doces. Na Igreja Católica é Nossa Senhora da Conceição da Praia.

A Deusa do amor é associada com a primavera, com a natureza desabrochando, com o tempo em que as sementes em repouso explodem em esplendor. Ela representa a consciência do relacionamento com sentimento. É uma Deusa alquímica, simbolizando o poder transformativo e criativo do amor, inspirando os seres humanos a criarem.

A falta desse arquétipo, do feminino divino na vida dos seres humanos e das estruturas sociais, cria mecanização dos comportamentos e atitudes, gerando dissociações, excesso de racionalização e distanciamento do coração. O mundo contemporâneo precisa do feminino para equilibrar as necessidades emocionais de afeto, carinho e respeito pela Natureza, que se reflete em todos os aspectos da vida: sociais, políticos, religiosos, etc.

Na Psicologia Junguiana, é um arquétipo representativo da Anima, o feminino inconsciente do homem e do Self, nosso centro mais profundo, presente no inconsciente coletivo, responsável pelas transformações, quando vivenciamos o diálogo com o Ego, nosso centro consciente, em busca de inspiração, cura, beleza, harmonia e unidade.

Na religião afro-brasileira, as cores de Yemanjá são azul e branco, seu dia é sábado e os presentes prediletos são flores, perfumes como alfazema, espelho, enfeites em geral, próprios da vaidade feminina. Os presentes são colocados no mar, em barcos de pescadores, entoando cânticos e rituais de saudação: 

" Odò Ìyá!!! "


Verusa Silveira
Psiquiatra e Psicoterapeuta Junguiana
Coordenadora do Núcleo de Estudos Junguianos da Bahia