Interpretação do filme
Julieta dos Espíritos de Frederico Fellini
Por
Verusa Silveira
“Se não acendemos a luz do nosso imaginário, não
vemos nada.” Carl
G. Jung
Trata-se de uma obra de arte da imaginação criadora do genial
diretor de cinema Frederico Fellini, primeiro filme colorido, onde observamos o
jogo de luzes e sombras, o preto e o branco nas roupas e nos objetos e a cor vermelha está em destaque em algumas passagens representando
fogo, vida, paixão, sangue, sexo, o despertar da consciência feminina na
protagonista Julieta.
Pensamos nesse filme como um Sonho e tentamos interpretá-lo
como tal. O sonhador dedica essa obra à
sua mulher Giulietta Masina, protagonista principal dessa trama, com seu olhar
claro de criança transmitindo todas as emoções.
Para Fellini, a produção de um filme é uma descoberta espiritual, onde os sonhos, as percepções extra-sensoriais,
o oculto, estão sempre presentes, o qualificando com um estilo singular, de
personagens às vezes grotescos, loucos, bizarros, exagerados em seios e nádegas,
representações de seu inconsciente, em sonhos, fantasias, lembranças de sua
infância e processo imaginativo fértil de uma mente aberta para o Universal. Quando questionado sobre a verdade ou mentira
em suas imagens excêntricas, fora do contexto convencional, ele diz que a
verdade propriamente dita torna-se secundária.
O verdadeiro artista sempre transita entre a realidade
consciente e inconsciente, mantendo a porta aberta para outra dimensão.
Fellini foi analisado no início dos anos 1960 por um analista
Junguiano Ernst Bernhard e se
familiarizou com as teorias sobre análise dos sonhos e o conceito de inconsciente
coletivo e seus arquétipos, influenciando sua obra. Ele afirma que o pensamento
Junguiano oferece uma estrutura para
suas explorações cinematográficas.
Ele foi incentivado por seu analista a escrever e desenhar
seus sonhos, exercício que durou até 1990, tendo falecido em 1993 aos 73 anos.
Viveu 50 anos com Giulietta e esta só sobreviveu 05 meses após sua partida.
Dizem que nesse filme estavam passando por uma crise conjugal. Ela atuou em 08
filmes dirigidos pelo marido. Seu analista faleceu em 1965, ano em que dirigiu
esse filme.Caetano Veloso, cantor e compositor brasileiro e baiano, foi convidado no final dos anos 90 pela irmã de Fellini em nome da Fundação Fellini a visitar Rimini, cidade onde ele nasceu, para fazer uma apresentação, em função de uma música que ele criou inspirado em Giulietta e que a tocara, embora esse encontro não se desse em vida. Caetano se emocionou muito nesse show, apesar de sua voz estar prejudicada e disse que sentia tristeza, orgulho exaltado e vagos medos ligados ao sentido de sua vida. Diz que na realização do show, criou-se uma atmosfera mágica que vem de um sentimento de recuperação metafísica do tempo perdido que é semelhante ao que sente em relação aos filmes de Frederico. Existiu um amor muito grande entre esses dois grandes artistas.
Nossa proposta é olhar esse filme como um sonho de Fellini, focalizando o tema do feminino.
Cenário:
Uma bela casa branca
de dois andares, uma mansão no campo, com uma paisagem bucólica cercada por um
lindo jardim onde eram cultivadas rosas. É uma casa próxima ao mar e a um bosque
cercado por árvores. Essa localização especial permite uma riqueza para os devaneios.
Os arquétipos do mar,
bosque e jardim são representações simbólicas do Self, arquétipo que representa
o centro da personalidade total, consciente e inconsciente; é o núcleo mais
profundo da nossa consciência, a centelha divina que vive em todos os seres
humanos, a fonte da vida.
Personagens que habitam a casa: Um casal de meia
idade Julieta e Giorgio, duas empregadas jovens Elizabete e Terezinha e um
jardineiro.
Julieta é uma mulher refinada, excelente dona de casa, gosta
de ler e cultiva seu jardim com amor. Tem uma aparência simples, apesar de bem
vestida e de bom gosto, fuma muito e está preocupada com o envelhecimento,
olhando sua face no espelho e observando a necessidade de revitalização. É uma
mulher de temperamento introvertido, sensível,
é obediente ao marido e respeita as convenções sociais.
Giorgio trabalha como relações públicas, é bem sucedido na
profissão, realiza eventos, festas, é um tipo extrovertido, sedutor, veste
sempre um terno branco, está sempre ausente, viaja muito e mantém o papel de
marido preservado.
A família de Julieta que frequenta sua casa é uma mãe, duas
irmãs e duas sobrinhas pequenas.
Sua mãe é uma mulher muito bonita, narcisista, vaidosa,
excessivamente arrumada, com rosto frio, distante, dominadora. Ela critica a filha em relação à aparência,
achando-a apagada e Julieta é sempre comparada com a mãe demonstrando
inferioridade no nível de beleza e sedução. As irmãs repetem o modelo da mãe,
controladoras, fúteis e artificiais.
Uma das irmãs é atriz de televisão, muito centrada em si,
narcisista e histriônica. A outra tem um perfil autoritário, deixando as filhas
aos cuidados de Julieta que é afetiva e gosta de cuidar.História:
O início da trama mostra o empenho de Julieta em se arrumar
para esperar e seduzir o marido, trocando várias perucas e vestidos, acompanhada
de suas amas, que admiram suas peças e emite opiniões. O clima é de celebração de 15 anos de
casamento e esta preparou uma surpresa romântica para o marido à luz de velas.
Ao entrar, ele se dá
conta que esqueceu essa data e finge amá-la com uma atitude habitual de marido
fiel.
Acender o fogo representa simbolicamente a libido como
energia psíquica em seus vários níveis, do sexual ao espiritual.
Giorgio entra acompanhado de um grupo de amigos, artistas
extravagantes, médico e advogado, que invadem a casa; Julieta os recebe bem,
apesar da frustração; é uma pessoa contida em suas emoções e bem adaptada ao
sistema.
Uma das convidadas Valentina é sensitiva e coloca no jardim
um mobile para afastar maus espíritos. Outra, escultora, bem sensual se oferece
para preparar um prato. Tem um médium Genius radioestesista que traz um pêndulo
para percepção de energias extra físicas e fala de astrologia. O clima muda
totalmente para um suspense e Julieta está apreensiva, apesar de Giorgio
confessar seu amor.
O grupo decide fazer
uma reunião mediúnica e invocar espíritos, colocando incensos e se dão as mãos
criando uma corrente de energia. Os homens ficam de fora, só o médium
participa.
A primeira mensagem é
de um espírito Íris: “Amor para todos” sugerindo uma expansão do amor
possessivo, fechado, para um amor inclusivo, Universal.
Julieta passa mal durante essa sessão e está muito mobilizada
com os novos acontecimentos, despertando para realidades invisíveis, seu
inconsciente. Diz que sente medo e fascínio ao mesmo tempo pelos fenômenos do
mundo psíquico. Recorda que era uma criança que via o mundo espiritual.
Ao acordar, seu marido já havia saído e ela dirige-se à praia
com suas sobrinhas e conversa com seu médico sobre suas percepções da noite
anterior, recebendo julgamentos de uma atitude anti científica e dá explicações
racionais dos fenômenos, lhe aconselhando a fazer mais amor com seu marido e
ficar mais aterrada.
Esta fecha os olhos, e vê uma bailarina no circo se
balançando num trapézio, recordação de infância.
O que representa essa imagem como personificação de conteúdos
do inconsciente de Julieta?
Mais adiante, aparecem
duas rodas girando na praia por dois garotos e uma comitiva que trazia uma
tenda para ser armada na praia com uma mulher belíssima de biquíni, bem sensual
e acena para Julieta. As sobrinhas vão cumprimenta-la e esta as recebe
afetuosamente, sendo a sua vizinha Suzy, uma mulher de temperamento oposto ao
seu, bem excêntrica, sensual, livre, exótica. Ela manda oferecer uma cesta de
frutas, demonstrando um desejo de fazer amizade. Julieta parece temer esse
encontro.
O médico, ao seu
lado, observa atentamente esta mulher que se instala na praia.
Julieta cochila na cadeira e sonha com um velho, vestido com
um roupão vermelho saindo do mar puxando uma corda e pedindo que ela o ajude.
Em seguida vê uma plataforma encima do mar com cavalos negros mortos e também
de pé; num barco, figuras estranhas de homens e mulheres tatuados, semi nús;
ela se assusta e pede socorro ao seu médico.
Que aspecto de Julieta pode-se associar a esse velho saindo
do mar, pedindo ajuda?
Que lugar é esse que ela ocupou puxando a corda?
Podemos fazer associações ao saber toda história.
Retorna da praia com as sobrinhas e a babá; encontra-se num
estado alterado de consciência, entre a vigília e o subconsciente e ouve vozes
lhe chamando, está muito perturbada.
Ao chegar a casa, recebe sua família, mãe e duas irmãs que
vieram buscar as meninas. Elas se mostram críticas e pouco afetivas, sem Alma.
À noite, ao dormir com o marido, ele sonha chamando Gabriela
que a deixa perplexa e inicia a desconfiar de uma traição. Ele nega quando
interrogado e ela lembra que alguém está ligando com frequência para sua casa.
Julieta finge na sua inocência não acreditar na traição
Toda essa mobilização sugere o fim de um casamento, de uma
fase de sua vida, onde os conteúdos do seu inconsciente estão mostrando
ameaças, medos, seus instintos animais mortos representados pelos cavalos,
cenas de erotismo, desejo, sexo, promiscuidade, aspectos sombrios de sua
personalidade reprimida.
Os sonhos são mensageiros do inconsciente e transmitem
ensinamentos quando elaborados e compreendidos com o consciente através das
quatro funções de orientação da consciência, o pensamento, o sentimento, a
intuição e a sensação.
Tanto os sonhos dormindo quanto os devaneios, o sonhar
acordado e as fantasias exigem atenção do sonhador. Sonho e Realidade se misturam
nessa trama que envolve drama, suspense, comédia...
Julieta decide aceitar o convite da sensitiva Valentina para
fazer uma consulta a um vidente famoso Bishma. Vai dirigindo seu carro e chove
muito. É uma tentativa de enfrentar seu destino com coragem.
O vidente é considerado tendo o segredo dos dois sexos, um
ser humano dotado de poder advinha tório como um oráculo. Ao subirem as escadas
do edifício, as luzes se apagam e se ouvem trovoadas e relâmpagos; as forças da
natureza estão bradando assim como a vida dessa mulher em transformação, como
um vendaval.
Julieta está vestida com duas cores fortes, vermelha e verde
e um lenço vermelho na cabeça; está bem bonita, apesar do medo e da tristeza.
Ao chegar ao edifício tem uma cerimônia de casamento e ela se
detém a observar o juramento de união para sempre.
O vidente está manifestado por espíritos e faz várias
perguntas e comentários sobre sexo, relação com o corpo, gostar de si e
vivenciar o prazer.
“Conhece o Kama Sutra”?
“O Amor é uma “Religião” O Amor é também Arte.”
Da prostituição?
Você é a sacerdotisa
do culto. Associamos à prostituta sagrada quando se fazia amor nos templos
antigos, com um desconhecido, na iniciação aos mistérios do amor honrando Eros
e Afrodite e escolhendo servir à deusa do Amor. O prazer estava associado à
união da sexualidade com a espiritualidade.
“Na Tradição Antiga da Índia, o amor como religião é” amar a
todos os seres’, expandir esse sentimento, a mesma mensagem do espírito na
sessão mediúnica.
Julieta vê novamente a imagem da bailarina encima de um
cavalo no circo.
Está muito apreensiva, e ao se despedir, Bishma dá uma nova
mensagem de que “algo novo e muito bonito ocorrerá nessa noite”.
Voltam pela estrada com muita chuva, relâmpagos e trovoadas. Mistério!...
Julieta conta a Valentina enquanto dirige que seu avô
apaixonou-se por uma bailarina do circo que era belíssima. Ao relatar, vê as imagens desfilando em sua
mente.
Ela é uma criança e está sentada no colo de seu avô; em
seguida, caminha pelo circo fazendo contato com os personagens, animais, vê elefantes,
acrobacias, etc.
Vê sua mãe fria e bela no camarote como observadora,
assistindo ao espetáculo com um olhar frio e distante.
Seu avô confessa sua paixão para a neta e diz que uma bela
mulher o torna religioso. Essa cena está repleta de homens agressivos que lhe
assustam. Vê um avião primitivo, tipo 14BIS e diz que sempre imaginou que seu
avô e a bailarina tivessem fugido no avião do circo.
Este foi repreendido pelo Reitor e expulso de todas as
escolas do reino... E desapareceu. Um dia, ele voltou alegre e sua filha não o
aceitou em casa. O bispo havia dito que ele tinha parte com o Diabo. Ainda
criança, foi ao funeral de seu avô, e sua mãe não chorava. Ela trajava um
vestido preto e estava linda como uma rainha sem coração.
Esse avô foi internalizado em sua memória como uma figura de
fantasia idealizada, livre de preconceitos e ao mesmo tempo proibitivo. O circo
representa o lúdico, o riso com os palhaços, jogos perigosos que exigem coragem
como o trapézio, domar animais, um mundo de fantasia, beleza e criatividade.
Sua mãe foi internalizada como uma figura autoritária e
repressora a quem ela devia obediência bem como às normas sociais estabelecidas
do casamento, as prendas domésticas, vestir-se bem para estar sempre bonita e
sedutora. Ela se opôs ao modelo materno criando uma formação reativa, indo para
o oposto, contida, passiva, reprime suas fantasias lúdicas, sensuais, eróticas,
mostrando-se como uma dona de casa exemplar, enraizada no cotidiano, com uma
sexualidade reprimida cheia de recalques.
Valentina é seu oposto, voadora, sem raízes, se sente
abandonada e procura nos oráculos, apoio e suporte na vida. Admira sua amiga e
quer ajuda-la. Ambas estão com crise de identidade, de dar sentido às suas
Vidas, se sentindo solitárias.
Ao retornar da consulta, Julieta avista no jardim um belo
homem citando versos na neblina cinzenta, como foi previsto pelo vidente.
“Rosa áurea”.
Personifica o cultivo desse jardim por alguém que ama muito.
Faz um drink e lhe
oferece. Entram num encantamento de enamorados.
Seu marido chega e apresenta seu amigo José, empresário e toureiro que o hospeda na Espanha. É um homem
rico e simples. Diz:
“O que vale é a doçura dos gestos... O equilíbrio.
O bom toureiro deve ter o coração puro... E o pensamento
límpido.
Como os frades e os dançarinos.”
Demonstra sua veia poética e seu estilo como toureiro.
Julieta está fascinada com sua coragem e sensibilidade e empresta seu lenço
vermelho para que ele possa aplicar sua arte com paixão. Ela se fez bela,
vestindo um casaco de pedras bem colorido e está alegre. Seu marido está bem
apagado nessa noite mágica, diante da empatia que se criou entre eles. Julieta
experenciava emoções bem fortes que lhe ajudavam a ressignificar seu caminho
como mulher desejada.
José expressou sua anima, arquétipo da feminilidade
inconsciente do homem através da poesia, dos gestos afetivos, falou de Amor e ao
mesmo tempo foi viril e corajoso ao demonstrar sua luta com o touro. Suas
polaridades ficam bem evidentes.
Esse encontro com José é um despertar na psique de Julieta,
do amor e da paixão por um desconhecido, dando um corte na sua relação vazia,
monótona, fria, artificial com seu marido, criando Alma e possibilidade de uma
projeção de seu Animus, arquétipo da masculinidade da mulher representando o intelecto,
a palavra, a coragem, iniciativa, espírito, autoconhecimento.
O símbolo do Touro representa o aspecto animal instintivo,
viril e físico de nossa psique, arquétipo da sombra.
José presenteia o
casal com um telescópio, objeto simbólico que amplia a percepção visual.
“Estranhos jogos do
Destino”...
A psicologia analítica
ou profunda fala do fenômeno da Sincronicidade, onde não existem coincidências,
mas... Uma conexão simultânea entre eventos internos, subjetivos e fatos
externos objetivos, gerando uma atração onde possa realizar-se uma alquimia de
transformação. É a própria Vida unindo Almas em processo evolutivo.
José expressa em poesia:
“Que resta ao mundo sem uma noite como esta”?
“O encontro com um amigo”.
“A volta da calma perdida”.
“Tudo se torna claro, plausível”.
Julieta olha no telescópio e vê de novo a bailarina do circo,
num momento de prazer.
Será que ela reconhece essa fantasia em seu íntimo?
Como ela internalizou esses elementos de Sombra a partir
desse avô transgressor?A figura paterna é desconhecida na sua história. Em suas imagens internas, aparecem muitos homens ameaçadores que podem representar a projeção de seu animus negativo.
No outro dia, ela escuta seu marido dialogando com a amante
ao telefone. Sua irmã Adele, a incentiva a procurar um detetive para seguir
Giorgio. Ela reluta a princípio, pois teme saber a verdade concreta. Entra em uma nova fase onde o arquétipo da
sombra, o mal reprimido, a mentira, as proibições estão presentes com
intensidade. As máscaras começam a cair.
Relembra uma passagem de sua infância, onde representou uma
santa mártir que foi queimada no teatro da escola e as freiras vestidas de
hábito preto desfilam em sua frente, como na inquisição se queimavam as bruxas,
mulheres sábias, intuitivas, com poderes de perceber as realidades
invisíveis. Sua relação com o divino
aparece de uma forma sombria na ideia do pecado e do martírio imposto pela
Igreja Católica para salvar a Alma.
Lembra-se da colega Laura que indaga se ela viu Deus e qual é
sua relação com Deus? Essa colega se
matou por amor e disseram que foi acidente por afogamento. Revive a verdade
nesse instante.
Na sua imaginação, seu avô aparece e manda retirar a neta do
sacrifício e pede que lhe obedeça; sua mãe está ao lado do reitor que
representa o poder e a repressão.
Julieta está conflituada, cheia de culpas, atravessando o
lado sombrio da realidade; despertou o amor através de José e sente-se traída
pelo marido. O que fazer?
Quando volta do detetive, tem uma visão em seu jardim que
José está tocando violão; seu desejo de amor e sexo é evidente. O desejo é
aceso pala falta de algo que se torna vital para ela.
Vai visitar a amiga escultora, mulher livre e apaixonada pela
sua arte; dialogam sobre a visão de Deus e ela transmite a imagem de Deus como
física e espiritual. É uma mulher autônoma e realizada a nível profissional e
afetivo, é amorosa e satisfaz seus desejos sem culpa.
Esses encontros representam aspectos latentes da psique de
Julieta em transformação, resgatando sua Alma, sua individualidade.
“Quem sou eu”?
Uma nova aparição no jardim, de um gato preto com laço
vermelho no pescoço, animal de sua vizinha. Os gatos são símbolos femininos, introvertidos,
contemplativos, sensuais, e eram companheiros das bruxas.
Julieta acolhe o animal com ternura, revelando uma empatia e
encontra um pretexto para visitar Suzy; é uma casa bem bonita, cheia de obras
de arte, várias esculturas e muitas flores.
Suzy a recebe com alegria e diz que sonhou com ela numa
igreja e a reprovava, tendo chorado muito e acordou em lágrimas.
Esse sonho revela como sua vizinha a vê de maneira sagrada e
repressora. O encontro de personalidades diferentes pode gerar uma
transformação para ambas. Julieta está com muito medo, entrando nessa casa
desconhecida, com uma mulher singular, solteira, e namora com vários homens,
vive num palacete cercada de mordomias e vários personagens vivem nesse lugar:
Sua avó que não dorme há cinco anos vê e sabe tudo, é uma maga; Arlete, uma
mulher com distúrbios psíquicos, já tentou suicídio três vezes com depressão,
sendo salva por Suzy que a protege. Julieta lembra-se da colega Laura já morta.
Suzi convida para uma festa em sua casa com seu marido e diz
que gostaria de amar um só homem, mas não consegue; parece admirar o estilo de
vida oposto ao seu.
Ela mostra sua intimidade levando-a para seu quarto rodeado
de espelhos, cheio de fetiches e diz que os homens têm cada fantasia... Da sua
cama desliza para um túnel onde cai na água quente como uma piscina. Diz: “Após
fazer amor, escorregamos”. Ela convida a
amiga para experimentar e esta se recusa, mas... Vivencia a fantasia.
Caminham pelo bosque
de bicicleta e Suzi diz que mantém o fogo aceso e não se nega a nada. Julieta
ouve vozes: “Suzi é sua mestra, ouça e
siga”.
Ela fala de seu casamento e que Giorgio é tudo para ela, o
seu mundo... Esposo, amante, pai, amigo e minha casa; não menciona a traição.
Um carro conversível branco as acompanha
com dois homens e Suzi os seduz com um espelho iluminando o caminho para chegar
ao seu quarto que fica em cima de uma árvore e sobe manipulando uma alavanca e
sentando numa cadeira. Julieta não aceita o convite para o sexo e se despede
quase fugindo com medo.
Esse personagem Suzy é semelhante à visão da bailarina; uma mulher linda, sensual e corajosa, um aspecto latente na psique de Julieta.
Ela retorna ao detetive só
e descobre que a amante de seu marido é uma jovem modelo de 24 anos e se chama
Gabriela, confirmando o sonho de Giorgio. Ela chora muito.O detetive é um senhor sinistro, ambivalente, astuto, dando mensagem dupla de moralidade em relação ao casamento, de permanecerem juntos e ao mesmo tempo dá ênfase às descrições que incentivam a separação e diz que presta serviço ao próximo. O psicólogo que o acompanha é um tipo superficial e descreve a personalidade pelas fotos dos clientes e seus comportamentos. Formam uma dupla de espiões natos.
Peripécia ou
desenvolvimento do sonho:
A protagonista entra em nova fase e decide ir só à festa da
casa de sua vizinha. Veste-se de vermelho e está sedutora e bem atraente. Diz
que seu marido confia totalmente nela; ainda tenta justificar sua nova conduta
livre. Ao entrar, é apresentada ao namorado de Suzi de 65 anos que gosta de
fazer amor todos os dias. Julieta finge estar bem, mas seu olhar é triste.
Diz que tem vontade de se divertir. “Quero que seja feliz”,
diz sua amiga. Nós reconstruímos o clima de uma casa de prazer. Entra um jovem
bonito que ela apresenta como seu afilhado e Julieta fica atraída e o
cumprimenta. Logo em seguida, tem uma visão de estar ardendo em chamas, de ser
queimada na fogueira. Sai correndo. A sua consciência não permite que ela se
liberte e faça sexo com um homem que lhe atrai.
Quando retorna em sua casa está tendo uma sessão de
psicodrama com a Dra. Miller. Julieta aceita participar para espanto de
Giorgio; ela está mais decidida e encarando a verdade, necessitando de ajuda
para enfrentar seus conflitos. Vê várias imagens no seu campo mental, mulher
enrolada numa serpente como Eva ou Lilith, seu oposto, representa a mulher
liberada, que tem orgasmo. Vê-se na fogueira em chamas. Vê José e indaga se ele
é real e o que lhe aconselha. Ele responde que só quer que ela viva bem. Está
totalmente perdida, conflitada em seu mundo subjetivo.
O advogado diz que a lei já não requer flagrante no adultério
e que basta uma prova e seu marido será condenado. Fala como um amigo que se
interessa por ela.
A psicodramatista diz que Julieta identifica-se com o
problema e esse é o seu erro. Caminham pelo bosque e aponta as grandes árvores
como símbolo de uma forma de viver, profundamente enraizadas à terra e abrem os
ramos em todas as direções, seu crescimento é espontâneo e este é o grande e
simples segredo a ser aprendido.
Realizar-se espontaneamente... Sem conflitos, com desejos e
paixões. Às vezes, é necessário falar com voz alta... Mesmo se é um estranho
que nos ouve.
Deite-se na grama, relaxe... Não tenha receio. Olhe o sol
entre os galhos. Tudo é paz, serenidade. Do que teme? Que seu marido a deixe.
Na realidade, é o que deseja, quer ser deixada só. Sem ele, começaria a respirar,
a viver... A ser você mesma. E pensa ter medo. Na verdade, tem medo de uma
coisa, ser feliz.
Clímax ou suspense:
Julieta vai procurar a
amante do marido que não se encontra em casa; é recebida pela empregada que
arruma sua mala para viajar com Giorgio. Ela informa que seu namorado está
muito apaixonado por ela, ficam bem juntos, ela o merece, escolheram os móveis
juntos da casa e de bom gosto. Gabriela telefona e Julieta faz questão de se
apresentar como esposa e esta a trata indiferente e que não tem o que falar com
ela.
Julieta continua sentada naquela casa, vendo o retrato de seu
marido, arrasada, humilhada, deprimida, chegando ao limite de sua virada.
Retorna à sua casa e encontra seu marido arrumando sua mala
só pela primeira vez e ainda continua mentindo que vai fazer uma viajem para
descansar. Ela, também continua fingindo, sem expressar suas emoções, o
tratando bem como uma dona de casa maternal e despedem-se friamente, usando a
razão lógica para se defender do fim de uma relação que representa uma morte
psíquica. Ambos mantêm as aparências, as convenções representando o arquétipo
da Persona.
Lysis ou Final do
Sonho:
A empregada fecha todas as venezianas brancas, marcando o
final de um Sonho.Julieta chora a dor da despedida e ouve a voz de um espírito dizendo que faça o mesmo que ela e vem à lembrança de Laura que morreu por amor, espírito obsessor que acompanhou toda a jornada de Julieta.
Continua desfilando em seu campo mental várias imagens do
passado e do presente; vê as freiras de preto, vê o jovem bonito vestido de
branco, vê José, o toureiro, o velho de vermelho, o detetive e o psicólogo,
Suzi descendo em sua cadeira que dá acesso ao seu quarto, o caixão da amiga, o
avião do circo com seu avô, vê sua mãe e ouve seu médico dizer: Compre um
cavalo, salte obstáculos, nade...
Relembra a psicodramatista:
“Sem Giorgio, começaria
a viver, a respirar...”.
Julieta revê toda sua vida em alguns instantes, vai para seu
quarto, acende a luminária como de costume, pega seu livro e não consegue
acalmar sua ansiedade. Pede ajuda a sua mãe em seu íntimo e vê uma expressão
malévola, exigindo obediência.
Vê uma nova porta que não se abre e afirma que sua mãe não
lhe amedronta mais. Vê vários rostos amedrontados e as freiras. Vê a menina
entre as chamas e desamarra os laços que a prendem e se abraça com ela, indo ao
encontro do avô.
A última imagem é um carro alegórico, mistura do circo e dos
personagens da casa de Suzi, seus amigos e todos que fazem parte de seu mundo
interno e externo. Ela se despede do avô, ele diz que ela não precisa mais
dele: “Também sou invenção sua... mas você é a Vida! Adeus Bistequinha.”
Supomos que o velho de roupão vermelho que sai do mar e pede
ajuda é seu avô que funcionava como sua identidade masculina, paterna, imagem
de animus, modelo idealizado de vida, um guia espiritual, representado pela cor
vermelha e associado ao Diabo, ao bem e mal. Entregar a corda simboliza passar
a responsabilidade de sua vida para que ela assuma suas polaridades masculina e
feminina, sua autonomia. É o fim de um ciclo e recomeço. Morte e Transformação.
Todos esses personagens construíram essa possibilidade, sendo
aspectos da psique de Julieta em metanóia.
Ela abre sua porta que dá para o jardim, recebe o vento,
respira, ouve os espíritos lhe dizerem que são amigos verdadeiros, está serena,
pois integrou sua realidade subjetiva e objetiva, sua psique está fortalecida,
é uma mulher madura e amorosa.
Sai caminhando só
pelo bosque entre as grandes árvores e inicia seu processo de individuação ou
desenvolvimento da personalidade consciente e inconsciente.
Focalizadora: Verusa Silveira, psiquiatra e psicoterapeuta
Junguiana, coordenadora do Núcleo de Estudos Junguianos- Bahia.
Realizado em 28/11/2012, em Salvador - Bahia
Bibliografia:
Sam Stourdzé, TUTTO FELLINI
Edições SESC-SP
C.G. Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões
Editora Nova Fronteira
Robert Johnson, A Chave do Reino Interior
Editora Mercuryo
Nancy Qualls-Corbett, A Prostituta Sagrada
Editora Paulus
Aldo Carotenuto, Eros e Pathos: Amor e Sofrimento
Ed. Paulus
Muito bom, esse texto me ajudou muito a entender melhor o filme
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