terça-feira, 12 de julho de 2011

 50 anos sem Jung


desencadeamento psíquico que não se pode a não ser parcialmente. A  história é sem começo e
“Cada vida é um desencadeamento psíquico que não se pode dominar a não ser parcialmente. A história é sem começo e o fim é apenas aproximadamente indicado”.
C.G.Jung    o fim é apenas aproximadamente indicado”.
      CCCCCCC                                                                    
C. G. Jung   
No dia 6 de Junho completou 50 anos de falecimento de Jung. Esta antiga entrevista com o neto dele, Dieter Baumann, foi  resgatada em parte por Luciano Colella, analista Junguiano em São Paulo e presidente do Instituto de Estudo de Psicologia Analítica.

(Fonte: Jornal "Folha de São Paulo", 08 de junho de 1991)

"O que mais me impressiona em Carl Gustav Jung é a capacidade que teve de suportar os opostos em si mesmo". Decorridos 30 anos da morte de um dos pioneiros da psicanálise, completados no dia 06 de junho de 1991, o jornal "Folha de São Paulo" entrevistou Dieter Baumann, 64 anos, neto de Jung. Sendo neto ele o conheceu não como "o príncipe herdeiro do império freudiano", tampouco como "o velho sábio de Zurique". Em entrevista exclusiva, Baumann conta lembranças de sua infância, que revelam uma face íntima do avô.

Folha - Qual a primeira lembrança que você tem de seu avô?

Dieter Baumann - A primeira lembrança que tenho dele é de quando ele tinha 58 anos e eu 5 ou 6, acho. Eu e mais alguns meninos estávamos em Shafuza, em um grande jardim que era da minha bisavó, tentando fazer um condutor, um tubo, com as hastes de dentes-de-leão. Queríamos que a água corresse através da tubulação e tentávamos encaixar este longo tubo, de vários metros, na bica. Claro que não dava certo. A pressão da água expulsava o tubo.
Fizemos várias tentativas. Aí chegou Jung, perguntou o que estávamos tentando fazer e, quando nós explicamos, pegou o tubo, colocou-o dentro de um tanque que havia debaixo da bica, sugou pela outra ponta e depois que a água chegou, pôs a outra ponta do tubo para fora e abaixo do nível da água e a água começou a escorrer. Em outras palavras ele fez um sifão. Assim ele salvou a nossa brincadeira.

Folha - Isto é muito interessante, porque simbolicamente a água é associada com freqüência aos conteúdos do inconsciente e à energia psíquica.

Baumann - Exatamente por isso que me deve ter vindo à mente. Isto me leva a uma outra lembrança. Quando eu tinha oito anos, estava passando férias com ele em Bolinggen e lá fora, perto da torre, ele tinha um sistema fluvial de rios em miniatura. Ele cavou uma região encharcada e encontrou algumas pequenas fontes. Escavou então pequenos canais por onde a água destas fontes pudesse correr. Como eram várias fontes, acabou formando um verdadeiro sistema fluvial em miniatura que ele manteve e cuidou por muito tempo. Marie-Louise Von Franz chamava essas atividades do Jung de "waterworks" (trabalhos com água). Uma outra lembrança também associada aos canais é de quando eu já tinha 20 anos. Eu o estava ajudando na manutenção deles. É claro que, às vezes devido à movimentação, a água ficava muito turva. Nesse dia, porém, havia um dos afluentes que estava com a água particularmente límpida. Esta água límpida ao entrar na turva criava um des enho muito bonito, uma espécie de nebulosidade, mas límpida. Então eu disse a ele: "Olhe para isto", e apontei-lhe o desenho. Ele olhou e disse: "sim, isto é influência" (influir). Estas lembranças levaram-me a perceber uma das suas características marcantes que era esta união do pensamento concreto e abstrato com o simbólico.

Folha - Jung continuou seu trabalho intelectual até o fim da vida?

Baumann - Bem, praticamente o último trabalho que ele escreveu foi o seu artigo em "O homem e seus símbolos" e isto foi cerca de dois meses antes de morrer. Lembro-me dele nesses dias, escrevendo no terraço da sua casa.

Folha - E sobre a relação de Jung com Freud, você se recorda de algum comentário que ele tenha feito?

Baumann - Lembro-me apenas de que ele me contou uma vez que, quando escreveu "Transformações e Símbolos da Libido" - posteriormente passou a se chamar "Símbolos da Transformação" -, ele sabia que este livro lhe teria custado a amizade de Freud. Ele tinha comentado isto com minha avó. Isso o desgostou muito mas ele tinha que escrever aquele livro.

Folha - O que você lembra do interesse de Jung em relação à parapsicologia?

Baumann - Estes assuntos não lhe interessavam por si mesmos. O seu interesse voltava-se para o significado destes fatos, fazia parte de um interesse mais geral pelas relações entre o corpo e a alma. Em particular através da sua descoberta da sincronicidade, na qual, digamos a realidade física e a realidade espiritual se encontram.
Por exemplo, lembro-me de um fato muito interessante que ele contou que ilustra bem o seu tipo de interesse. Jung estava em Bollingen com Hans Kuhn. Estavam andando fora da torre, conversando. Jung teve um pensamento no qual concluía que o cristianismo não pode vencer o paganismo e vice-versa, e que ambos teriam que morrer para que se criasse algo novo que contivesse os dois e fosse além dos dois. Nesse exato momento encontraram uma cobra morta. Ela tentara comer um peixe muito grande e ficara sufocada. Assim o peixe (que é uma alegoria tradicional do cristianismo) matou a cobra, e a cobra (que é do paganismo) matou o peixe. Isto aconteceu em 1935, 15 anos antes de escrever o seu trabalho sobre a sincronicidade.

Folha - Depois de ter sido fundado o Instituto Jung, como ele via o movimento da psicologia junguiana?

Baumann - Sei que ele não se sentia muito contente que o colocassem num pedestal. Marie-Louise von Franz disse-me uma vez que Jung não queria fundar uma escola e nem ter seguidores mas sentia-se muito satisfeito se o seu trabalho pudesse estimular outras pessoas a se dedicarem ao seu próprio trabalho criativo.

Folha - Uma agressão a Jung que de vez em quando vem à tona é a que o acusa de um suposto anti-semitismo. O que você diria a respeito?

Baumann - Isto é terrível. Continuam sempre insistindo nisso. Existe um livro escrito por E. A. Bennet, "O que Jung realmente disse", no qual ele esclarece definitivamente toda esta questão. Assim, se alguém insiste nisto certamente não está de boa fé. Claro que Jung observou o nazismo como fenômeno psíquico. Posso dar um testemunho pessoal a respeito. Lembro-me de que quando estourou a guerra, no dia 1º de setembro de 1939, estávamos em Bolningen e fomos chamados por uns vizinhos que tinham um rádio, para ouvir aquele discurso demagógico de Hitler. Lembro-me de como Jung ficou profundamente indignado e irritado e expressou isso de um modo muito claro. Lembro também claramente de como ele, durante as refeições, comentava o que estava acontecendo na política e sempre se expressou de uma forma claramente antinazista. Sei também que ele ajudou muitos judeus na época. Ele fez um seminário na Alemanha, em 1935, no qual se lê, nas e ntrelinhas, claramente a sua posição contrária ao que acontecia.
 
Folha - A psicologia junguiana não estaria adquirindo uma dimensão cada vez mais escolástica?

Baumann - Sim, é verdade. Mas eu sempre vejo aqui e acolá pequenos grupos não-oficiais que se formam. Eu já dizia 30 anos atrás que a psicologia junguiana deveria ir para as catacumbas. Fui muito criticado por causa disto porque, por um lado, parece importante que seja difundida, mas quando se vê o uso que algumas pessoas fazem dela, é muito triste. Eu tenho o privilégio de poder me comunicar com vários pequenos grupos deste tipo. Creio que quando conseguimos estas trocas, não oficiais, sem pretensões institucionais, então teremos algo positivo. Mas creio que também quando há instituições as coisas poderiam ir bem se as pessoas envolvidas percebessem que isto é um compromisso com o mundo. Mas tão logo se acredite que esta instituição é uma coisa em si mesma, então isto vai mal.

Folha - O que mais o impressiona na obra de Jung?

Baumann Neste momento, digamos que é a capacidade que teve de suportar os opostos em si mesmo. Aceitando o sofrimento da guerra interna é que se cria a possibilidade de contribuir para a paz. Diria que um dos grandes méritos de Jung foi o de ter reintroduzido no Ocidente o pensamento antinômico, já que, se alguém suporta os opostos em si mesmo, permanece consciente, e assim, serve à completude. Senão, a outra metade é projetada no inimigo, dando início às guerras. Jung diz que se alguém tem um conflito profundo, o importante é tentar participar dos dois polos do conflito, e assim lentamente poderá vir à tona um novo símbolo que os reunirá, ou estará acima ou abaixo dos dois polos. É a lógica de alguém que renuncia à prepotência de querer apossar-se do mistério, pois, se se tentar simplificar as coisas, identificando-se com um dos polos, ocorrerá a dissociação. É exatamente quando se aceita a dilaceração do conflito é que o ri sco de uma dissociação é menor. Eu diria que a dilaceração é o oposto da dissociação.



domingo, 19 de junho de 2011


As Pontes de Madison
Por: Verusa Silveira



“Num universo de ambigüidades, este tipo de certeza só existe uma vez e nunca mais, não importa quantas vidas se vivam”
Robert James Waller."

Elenco:
. Clint Eastwood : Robert Kincaid
. Francesca Johnson : Meryl Streep
. Annie Corley: Carolyn Johnson
. Victor Slezak: Michael Johnson




"Vejo agora claramente que tenho avançado na tua direção e tu na minha desde há bastante tempo. Embora nenhum de nós tivesse consciência do outro antes de nos termos encontrado, havia uma espécie de certeza inconsciente que murmurava alegremente por debaixo da nossa ignorância, garantindo que nos havíamos de unir. Como duas aves solitárias sobrevoando as imensas pradarias por vontade divina, todos estes anos e vidas avançamos ao encontro um do outro." (...)
 Robert James Waller.


Narra um encontro amoroso entre Francesca Johnson, proprietária de uma fazenda no interior de Iowa e Robert Kincaid, um fotógrafo da National Geographic, de Wasghinton, que estava pesquisando pontes fechadas e chegou nessa cidade de Iowa, em Madison, como artista e aventureiro em busca de sua trilha, pedindo informações a Francesca que acabava de despedir-se de sua família, marido e filhos que iam passar quatro dias fora, para participar de uma feira de gado aonde iriam levar um novilho da filha para concorrer.

“Esse encontro magnético ocorreu como uma trama do destino ou sincronicidade, havendo uma” coincidência significativa “definida por C.G.Jung, como princípio de “conexão a causal,” que mostra um elo existente entre dois eventos encadeados ocorrendo simultaneamente; a saída dessa família e a chegada desse fotógrafo na cidade também por quatro dias”.

Não podemos explicar a vida somente pela razão lógica; a sincronicidade se baseia numa visão mais ampla do ser humano onde acontecimentos do mundo interno e externo se unem, criando situações de nível profundo de sentimentos e intuições na psique.

Esse homem e essa mulher precisavam de uma experiência emocional transformadora naquele exato momento, que o encontro proporcionou.

Pode existir uma coincidência entre o conteúdo mental (que pode ser um pensamento ou um sentimento) e um evento externo.

Quem sabe o que cada um estava desejando nesse momento!...

O filme é uma adaptação do romance de Robert James Waller, que supostamente é baseado numa história real.

A trama inicia pelo final do filme, com o encontro dos irmãos Johnson, Michael e Carolyn, na fazenda, após falecimento de sua mãe que deixou um advogado para entregar seu testamento e cartas endereçadas a eles, um diário onde escrevia suas lembranças e um baú com objetos íntimos, além da sua decisão de lançar suas cinzas na ponte Roseman, junto com as cinzas de Robert que havia morrido há três anos atrás e enviou para Francesca sua máquina fotográfica, livro de fotos, cartas e corrente com crucifixo gravado com seu nome que ela lhe deu de presente, um amuleto, para proteção. Ela guardava essas memórias num baú trancado e suas cartas contavam aos filhos “detalhes de sua vida em silêncio”.

A história se desenrola a partir da revelação dessas cartas, que deixa os filhos chocados, com a transgressão de sua mãe que manteve em silêncio sua aventura até o final da vida, para protegê-los de uma moral aprisionante de uma cidade pequena, de hábitos conservadores e controladores. Francesca mantinha as aparências para adaptar-se ao estilo de vida que escolhera para se casar e formar uma família.

Vemos o aspecto do arquétipo da Persona que define os papéis na sociedade e reprime sonhos e criatividade se não forem quebradas as regras impostas.

 Francesca era uma mulher na meia idade, inteligente, que estava bem adaptada aos papéis de esposa e mãe, mas havia uma insatisfação em sua vida, desejos reprimidos de conhecer novas culturas e pessoas, abrir sua mente, que foi realizado através da relação, função do princípio de Eros, despertando o Processo de Individuação em ambos, na meia-idade, conceito junguiano de desenvolvimento da personalidade a partir da necessidade que cada ser humano tem se completar e “ser o que se é”, singular e criativo.

 Ela se mostra espontânea como uma criança ou adolescente, cheia de vida, disposta a compartilhar o prazer, está receptiva a conhecer esse homem, que lhe deixa curiosa ao buscar essa ponte para fotografar.

Ponte é um símbolo de passagem e de prova, é preciso atravessá-la, fazer uma escolha, como uma encruzilhada. É também um símbolo romântico de encontro de amantes, referindo-se às iniciações dos mistérios ou atrações no amor.

 Robert é um homem solitário, divorciado, sem filhos e coloca seu trabalho como uma obsessão, determinação e sentido, fonte criativa de estar no mundo fazendo escolhas a partir da liberdade do seu ser e se define como “cidadão do mundo”.

O cenário é bucólico, estradas rurais belíssimas com vegetação exuberante, pontes e campo coberto de flores. Sua casa é confortável e simples, típica da área rural e a cozinha é bem acolhedora, onde passam a maior parte do tempo, se conhecendo, comendo, bebendo, rindo, escutando música e se enamorando.
 
Os filhos ficaram chocados inicialmente com as cartas e revelações da mãe e resolveram levar um tempo juntos para digerir essas informações novas. Essa situação de perda e luto os reuniu em novas elaborações.

À medida que a leitura sucedia, eles iam se transformando através dessa história autêntica de amor do tipo Eros, ardente, apaixonado, terno, romântico, poético e sublime, criando pontes em nossa imaginação de como iria evoluir esse processo entre uma mulher casada e um homem livre. 

A reação de Michael é bem diferente de Carolyn, se afastando algumas vezes da leitura, com agressividade e revolta, em função da quebra da imagem idealizada da mãe; ela parece estar mais curiosa e aprendendo sobre sua identidade feminina no momento que está em conflito com seu casamento e pretendendo divorciar. Ambos questionam seus casamentos a partir de um novo modelo.

Francesca decide levar Robert à ponte Roseman e o romance inicia de forma bem natural como se conhecessem há longo tempo. Acontece outra sincronicidade, pois ele conheceu a cidade onde ela nasceu em Bari, na Itália.

 Ele vai pegar um som no porta mala do carro e toca em sua perna deixando-a desconcertada e atraída ao mesmo tempo. A paixão de Eros já incendiou seus corpos e corações que flamam de desejo ardente de amar.

Chegam à ponte coberta e ele arma seus aparelhos para iniciar seu trabalho. Ela, caminha pela ponte e parece fantasiar esse instante de liberdade com um desconhecido que coloca sua vida pelo avesso e a faz sonhar acordada. Ele colhe flores e a presenteia e ela faz uma brincadeira dizendo que eram venenosas; ele se intimida, a chama de sádica, e ela se diverte muito com sua provocação.

 Robert está totalmente seduzido por essa encantadora mulher. As flores venenosas podem ser uma alusão aos medos que estão por trás desse processo que inicia com tanta intensidade. 

Ao retornar, ela o convida a tomar um chá em sua casa e ele aceita.  Conversam muito e ele indaga sobre seu marido e estilo de vida. Suas respostas são vagas e diz que “não é o que sonhou quando menina”. Ele fala de um pensamento seu quando dirigia na estrada.

“Os velhos sonhos eram bons sonhos; não se realizaram, mas foi bom tê-los”.

Ela o convida para jantar e a intimidade foi crescendo, a ponto de não poderem se despedir. Ela o observa se lavando num tanque externo a casa, e está apaixonada. Olha-se no espelho e percebe sua transformação pelo Eros, deus do amor e da beleza, que já flechou seus corações para sempre.

Ele conta suas aventuras de viagem e se descontraem num prazer indescritível, como duas crianças brincando, com Alma, sem censuras, uma permissão de viver o instante presente, poético.

Robert fala de sua profissão e diz que é obcecado pelo que faz, gosta de inventar como fotógrafo, voyeur. Ela foi professora e deixou em função da dedicação à família.

Saem a caminhar na noite mágica, inspirada, e ele recita uma frase do poema de Yeats.
“As maçãs prateadas da Lua e as douradas do Sol”

Vemos a união das polaridades masculina e feminina através dos símbolos do sol e da lua, processo que está acontecendo em suas psiques.

Ela pede para voltarem a casa e pergunta sobre seu divórcio e outras mulheres em sua vida, questionando seu estilo solitário, autossuficiente e sem raízes. Ele fala do amor universal e de não ter posse por ninguém. Ela vai ficando irritada com suas respostas e percebe-se seu medo de dar vazão ao desejo de amar. Ele fica furioso com suas críticas e julgamentos, e se despede pedindo desculpas e muito aborrecido.

Nesse momento aparece o arquétipo da sombra expressando os instintos agressivos, violentos, da não aceitação da realidade, preconceitos, medo de perder a segurança, controle da situação, status social de mulher casada, etc. Há uma quebra do processo sendo expresso pela insegurança de Francesca em abrir sua casa para um desconhecido e ele se sente precisando dela, uma situação nova para ambos, de superação de valores e comportamentos.

Despedem-se e Francesca está muito mobilizada pela paixão e abre seu corpo ao vento e se mostra nua, simbolizando sua abertura de coração para receber Robert. Decide escrever uma mensagem que deixa colada na madeira da ponte coberta e espera.

“Se você quiser jantar quando as mariposas alçarem voo, apareça à noite quando terminar, a qualquer hora.”

Ele marca encontro na ponte e se reencontram; ele faz fotos dela, espontâneas, como uma menina tímida.  Francesca demonstrou coragem ao escolher vivenciar esse amor e se mostra bela e sedutora; compra um vestido novo que lhe surpreende. Dançam apaixonados, à luz de velas, brindam a felicidade e fazem amor entregues ao deleite da volúpia. 

A paixão leva à projeção dos arquétipos da anima e do animus, que representam os aspectos femininos e masculinos inconscientes do homem e da mulher que devem ser reconhecidos e integrados na evolução do processo de individuação do ser humano. Jung dizia que no encontro a dois, se reúnem quatro. O homem e sua anima, a mulher e seu animus.   Essa é uma questão importante no casamento com seus conflitos de diferenciação e integração. Existe o momento de união e de separação onde cada um pode se perceber como um ser em busca de completude. A simbiose existe, mas... Cada um é solitário em seu Eu essencial e necessita realizar-se.

Robert tranquiliza Francesca que eles não estão fazendo nada de errado, nada que não possa contar aos filhos. Ela interroga sobre sua solidão e ele diz que tem amigos e amigas e precisa de todos e adora gente e não tem medo da solidão, lhe agrada o mistério. Ela deixa claro que não quer deixar o marido.

A trama se desenrola num clima amoroso, pois Francesca ama e respeita sua família e Robert é muito cuidadoso e gentil para não invadir sua privacidade, respeitando os limites, apesar da vivência de suas intimidades em fusão. Nesses quatro dias eles foram amantes se projetando para a eternidade. 

A relatividade do tempo se configura num “Kairos”, atemporal, onde céu e terra, masculino e feminino se unem e os deuses concordam, constela o Self, arquétipo da inteireza e transcendência, onde se encaixa a sincronicidade e o mistério do infinito.

Lembrando o poeta Vinicius de Morais, “Que o amor seja infinito enquanto dure”.
Após fazerem amor, ela pede para saírem da casa e foram para longe da cidade fugindo dos olhares conhecidos e das lembranças amargas. Nesse momento estão juntos no mesmo carro, como amantes assumidos.

Foram a um lugar ouvir música com uma orquestra maravilhosa de jazz.

Conversam muito sobre suas vidas íntimas, dançam colados e fazem amor.

Quando retornam a casa, aparece o conflito da perda e separação com muitas indagações. Aparecem os instintos reclamando a posse e muita raiva e angústia.

Robert expressa que quando fotografa, a única razão é que passou a sua vida tentando chegar até ela e se tiver de pensar em ir embora sem ela, é a morte. 

Ela pede que ele não a deixe. Ambos choram.

Uma vizinha interrompe e não percebe o incômodo de Francesca.

Ela o reencontra deitado em sua cama e lhe pede para fugir com ela. Momento de escolha. Ela arruma a mala para segui-lo, mas... reflete que seu marido não merece essa atitude pois ele nunca a magoou e não sabe viver fora dessa fazenda.

“Quero amá-lo do jeito que amo agora a vida toda.”

Robert diz que vai ficar ainda nessa cidade para ver se algo muda e reafirma que essa certeza só ocorreu uma vez na sua vida.

Seu carro desaparece na estrada e logo em seguida, um novo carro chega com sua família como no começo. Ela os recebe carinhosamente e seu olhar está na estrada.
Retoma sua vida cotidiana familiar e sai com o marido para cidade fazer compras. Chove muito. Ela vê Robert olhando em sua direção, totalmente molhado e transfigurado. Despedem-se novamente. O marido faz uma observação que aquela camionete era de um fotógrafo hippie e não sabe por que estava atrapalhando sua passagem na sinaleira como se estivesse esperando alguma coisa.

A chuva nessa cena mostra o simbolismo de excesso de sentimentos, representando a inundação do inconsciente sem controle diante da dor da separação.

Francesca chora muito e pensa que gostaria de compartilhar com eles mas será que eles perceberiam a beleza do que houve?

Ela faz confidências com Lucy, mulher excluída da sociedade por infidelidade, a única que poderia compreendê-la. Ela confessa que continua a amá-lo.

 O tempo passa... Seu marido morre e declara seu amor por ela, desculpando-se por não realizar seus sonhos; ela cuida dele com afeto até o final.

Francesca tentou procurar Robert, mas ninguém sabia onde ele vivia. Anos depois, recebeu uma carta do seu advogado com um pacote de seus objetos e um livro de fotos que dedicou a ela.

Quanta emoção! Olha pela janela e enxuga as lágrimas do tempo e pensa, imaginando, dirigindo-se aos filhos em suas cartas:

“ Não há um dia que não pense nele. Quando disse que não mais  éramos dois, ele estava certo. Estivemos o mais unido que duas pessoas podem ficar. Se não fosse por ele não teria conseguido ficar na fazenda todos esses anos.
“Depois de ler tudo isso, espero que vocês possam entender meu último desejo. Não é nenhum delírio de uma velha senil. Dei minha vida à família. Quero deixar para Robert o que restou de mim, as cinzas.
Se minhas palavras não esclarecerem tudo, talvez suas fotos o façam. Afinal, é o depoimento do artista. Amo os dois do fundo do coração."

Os filhos jogam as cinzas na ponte Roseman; Michael reencontra sua mulher e Carolyn fica na fazenda para refletir sobre sua escolha.





“O Amor é uma espécie de loucura, disse Platão, uma loucura divina.”


Bibliografia:

 Emma Jung:  Animus e Anima
John Sanford:  Os parceiros invisíveis
Jean Shinoda Bolen: A sincronicidade e o Tao
C.G.Jung: (OC) Psicologia e Alquimia
Thomas Moore: Cuide de sua Alma

 Verusa Silveira: Médica Psiquiatra e Psicoterapeuta Junguiana.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Cinema no Consultório


O Núcleo de Estudos Junguianos tem o prazer de convidar para mais um Cinema no Consultório, agora com o filme “As Pontes de Madison”. Uma linda história de amor  dirigida  por  Clint Eastwood, protagonizada  por ele e por Meryl Streep,  papel que lhe valeu o Oscar de melhor atriz em 1995.



"Num universo de ambigüidades,  este tipo de certeza só existe uma vez e nunca mais, não importa quantas vidas se vivam."
Robert James Waller

domingo, 15 de maio de 2011


 Cisne Negro


    “Um encontro com a própria Sombra”

 
“A única pessoa que está no seu caminho é você mesma.”  Thomas

“Todo mundo carrega uma sombra, e quanto menos ela está incorporada na vida consciente do indivíduo, mais negra e densa ela é. Se uma inferioridade é consciente, sempre se tem uma oportunidade de corrigi-la. Além do mais, ela está constantemente em contato com outros interesses, de modo que está continuamente sujeita a modificações. Porém, se é reprimida e isolada da CONSCIÊNCIA, jamais é corrigida, e pode irromper subitamente em um momento de inconsciência. De qualquer modo, forma um obstáculo inconsciente, impedindo nossos mais bem-intencionados propósitos.” C.G.Jung 

 “O animal que é no homem a psique instintual, pode tornar-se perigoso, quando não é reconhecido e integrado na vida do indivíduo. A aceitação da alma animal é a condição da unificação do indivíduo e da plenitude do seu desabrochamento.” C.G.Jung

Elenco:

. Nina Sayers: Natalie Portman
. Thomas Leroy: Vincent Cassel 
. Lily: Mila Kunis
. Erica Sayers: Barbara Hershey 
. Beth MacIntyre: Wonona Ryder


Premiações:

Ganhou o OSCAR, o Globo de Ouro, BAFTA, Screen Actors Guild de melhor atriz para Natalie Portmann e ganhou o Independent Spirit Awards como melhor filme.



“Só quero ser Perfeita”   Nina


“Cisne Negro” é uma obra de arte. Reúne beleza em suas cenas elaboradas com primor, competência na atuação de seu elenco e diretor, profundidade ao tratar de temas sobre a natureza da alma humana.

Narra o desenrolar do processo de amadurecimento de uma jovem bailarina, chamada Nina, isto é, a sua Individuação. O termo é usado na Psicologia Junguiana para designar o caminho do desenvolvimento humano, através do autoconhecimento, que se traduz na trajetória do Ego (centro da personalidade consciente) em direção ao Self ou Si-mesmo, (centro mais profundo e diretor de toda a Consciência). 

 O filme é construído a partir das percepções subjetivas de Nina, de sua interioridade. Tudo surge de como ela se vê e vê o mundo, dos seus desejos, medos e mecanismos de defesa. O mundo de Nina mistura realidade e fantasia; nele o consciente e o inconsciente estão tenuamente separados.

 A gravidez indesejada de Nina faz com que sua mãe, Érica, abandone prematuramente o Ballet, traumatizando-a. Amarga e desiludida, sem vida própria, transfere para filha suas frustrações culpando-a inconscientemente por suas dores. Obcecada em realizar seus desejos não realizados através da filha, projeta nela aquilo que não conseguiu ser: uma grande bailarina e a partir daí dedica sua vida integralmente na construção obstinada de sua carreira.

 No nível psicológico temos uma relação mãe-filha do tipo neurótico. Uma mãe doentia e ferida pelos conflitos de sua vida que não pode aceitar integrar e transformar, e uma filha, dependente, e virginal que carrega as frustrações da mãe. Cada uma nutrindo e mantendo a neurose da outra, uma relação simbiótica, um Complexo Materno ainda por resolver.

Tirana e devoradora, Érica, cria Nina com rigoroso padrão de perfeccionismo, superproteção, exigência, repressão e controle, aprisionando-a no rótulo de “doce menina”, como gostava de chamá-la. Essa dinâmica lhe impede de desenvolver o curso libidinal normal de seu crescimento como ser humano e mulher, mantendo-a em um mundo infantil, vivendo como menina num corpo de mulher.

 "Era uma vez uma jovem chamada Nina que é criada em um quarto cor de rosa, envolta em bichos de pelúcia e caixas de música, por uma mãe dominadora que está sempre a espreita, sondando, escutando, controlando, observando. Mais uma bruxa ou madrasta do que uma mãe". Uma presença negra até nas roupas que veste, (ao contrário de Nina que está sempre de branco ou roupas claras) e que nutre um misto sentimento de satisfação, inveja e posse, sentindo-se ameaçada quando seu objeto de prazer e realização quer assumir vida própria. 

 O Filme começa com um Sonho, mensagens do Inconsciente. Nina sonha ser a Rainha dos Cisnes, exatamente quando estava sendo enfeitiçada pelo mago Rothbart, o personagem de sombra do conto, que se apresenta como uma ave negra. Foi um sonho escuro, misterioso, amedrontador, um pressagio do processo de transformação que a bailarina viveria.  Nina acaba realmente sendo a protagonista do espetáculo o Lago dos Cisnes e também sendo constelada pelo arquétipo da Sombra, (enfeitiçada por ele).

 A história “O Lago dos Cisnes”, é um conto francês de autoria de E. T. A. Hoffmann.  É a saga de uma princesa que é enfeitiçada com seu séquito de acompanhantes, por um bruxo, que a transforma em Cisne Branco durante o dia. Só um verdadeiro amor pode trazer a redenção e desfazer o encanto. É aí que um príncipe se apaixona por ela, mas, entretanto quando o amor vai se concretizar, o Cisne Negro (na verdade a filha bruxa do mago, que se faz passar pela princesa) o seduz. Ao perceber a traição e  a impossibilidade de ter sua vida normal de volta, o Cisne Branco resolve se jogar num abismo para a morte, num vôo de libertação. Essa acaba sendo a história do filme, e a de Nina, que vai sendo apresentada simbolicamente.

A trama é um duelo entre a Persona: arquétipo que representa a aparência externa, aceita como correta e adequada (o ideal do Ego) e o arquétipo da Sombra: nosso lado reprimido, negado e escondido.  Nina era a boa moça, filha esforçada, amorosa, quase perfeita, que negava sua sombra, recalcando conteúdos psíquicos ligados aos instintos sexuais, agressividade, e expressão. Essa cisão (comportamento polarizado) estrutura um Ego frágil e facilmente dissociável.

É a clássica metáfora do embate entre o bem e o mal, isto é, o confronto das polaridades opostas que nos habita: Luz e Sombra, simbolizado no filme pela rivalidade entre o Cisne Branco e o Cisne Negro. O desenvolvimento psíquico passa pelo equilíbrio dinâmico dessas polaridades, isto é a busca da Inteireza ou totalidade psíquica, que é a meta do Processo de Individuação (do latim individuus, que significa "indiviso", não fragmentado, ou "inteiro").

Para Jung, a meta da Individuação não é ser perfeito e sim ser inteiro. A inteireza, por definição, inclui um conhecimento de todos os aspectos da nossa personalidade, inclusive aquelas características que preferimos não reivindicar para nós. Jung observou: “A meta não é superar nossa psicologia pessoal, tornar-se perfeito, mas familiarizar-se com ela.”

Aqui poderíamos abrir um parêntese para identificar outras dicotomias do filme: corpo e alma, castidade e sexualidade, sedução e pureza, bem e mal, perfeição e pecado, e do papel que a cultura religiosa cristã, na qual estamos imersos, tem na repressão da Sombra e da enorme influencia que ela exerce no inconsciente coletivo.

O filme trata da batalha quase diária de crescer em contato com as dificuldades da vida, a luta interior pela libertação dos medos. O maior desejo de Nina era o sonho ambicioso de ser a Rainha dos Cisnes, do espetáculo o Lago dos Cisnes, sendo reconhecida como primeira bailarina. Isso corresponde ao imenso medo de se libertar de sua mãe e crescer, pois desejamos o que mais tememos. Para construir uma Identidade própria, Nina precisaria primeiro se diferenciar de sua mãe, rompendo com a simbiose. Teria que superar seus medos, enxergar seus monstros, integrar sua Sombra.

Magérrima, rígida, fechada para vida, com transtornos alimentares (bulemia e anorexia), Nina dedica-se inteiramente a  carreira de bailarina, passando o dia no preparo da forma física e em treinos exaustivos e extenuantes. Sua dedicação e esforço são stressantes e a busca da perfeição, que para ela queria dizer perfeição técnica, uma obsessão. 

 No mesmo dia em que teve o sonho, no caminho para a companhia de Ballet, podemos perceber que ela vê seu reflexo na janela do metrô, de uma forma diferente, como se a projeção de sua sombra fosse outra pessoa. 

Ao chegar ao Estúdio de Ballet, fica sabendo que o diretor Thomas fará uma versão de “O Lago dos Cisnes” e que procura uma bailarina que seja capaz de representar o Cisne Branco e o Cisne Negro e que nessa versão ele almeja uma execução visceral  bem diferente das outras.

 Thomas sabe que Nina seria certa para o papel do Cisne Branco, por ser doce, meiga, ingênua e pura, mas duvida de sua capacidade para fazer o Cisne Negro, pois ela não sabe nada sobre o lado negro, malícia, sensualidade, maldade e sedução. Nina é uma bailarina com muita técnica e disciplina, mas com pouca espontaneidade e sensualidade.

 Depois dos testes, a bailarina vai conversar com o diretor, e esse sempre a provoca, inclusive sexualmente, para que sua aluna desenvolva as características que estão reprimidas, o lado visceral que ele quer apresentar em sua montagem. Nina nessa conversa é beijada “a força” por ele e o morde nos lábios. É essa atitude que lhe garante o papel principal, pois é como se nesse momento Thomas tivesse enxergado em Nina um pouco daquilo que ele procurava.

 A busca pela perfeição é um dos temas centrais do filme e nela estão mergulhados todos os personagens da trama.

 “Cisne Negro” mostra um lado do Ballet que é pouco falado e mencionado: sua sombra. Por trás da beleza, da delicadeza e  leveza dos movimentos, existe uma arte extremamente cruel em sua busca pela perfeição no desempenho e reconhecimento profissional. Isso gera um ambiente de grande disputa, rivalidade e competição entre as bailarinas, o surgimento das “preferidas”,  um jogo sedutor e antiético de Egos inflados.

 Os ensaios começam e Nina é pressionada física, mental e emocionalmente. Todos os personagens vão influenciar a crescente loucura da protagonista em sua busca por perfeição: seu rígido mentor e diretor, a bailarina veterana, Beth que é uma perigosa versão dela própria no futuro e a novata Lily que tem todos os atributos do Cisne Negro e surge como forte concorrente para o papel, personificando seu inimigo interno no presente. Some a tudo isso a mãe opressora e teremos um terreno propício para a dissociação ou loucura.

A relação de Nina com Thomas instiga amor e ódio. Sem figura paterna para fazer o corte da simbiose materna, e, portanto sem modelo masculino, Nina vive a fase Edípica projetando nele seu animus, arquétipo de seu lado masculino inconsciente, fazendo um apaixonamento. Apesar de reconhecer o talento da bailarina, ele sabe de suas limitações e exige superação, pois sua perfeição técnica transparece como frieza e ausência de sentimentos. Para isso a seduz e propõe que se masturbe. 

 Nina luta internamente, pois quer ser uma mulher adulta mais teme a fúria e a presença da mãe caminhando inevitavelmente para a tragédia, surgindo distúrbios da senso percepção, como delírios e alucinações. 

 Observamos nela um comportamento de autoflagelação que é a manifestação de sentimentos de culpa e necessidade de autopunição.  Nina se coça até ferir a pele das costas do seu ombro direito (uma alusão a sua sombra) que vai sendo marcada no local onde cresceriam suas futuras asas. A pele é o nosso órgão de contato com o mundo e expressa nossas angústias e transformações. Ao se ferir, a garota encontra um meio de entrar em contato com seu próprio corpo, pois não consegue fazê-lo de outro modo.

Ela também provoca ferimentos e lacerações nas unhas das mãos e dos pés, (estigmas) sempre com sangramento e visões. O sangue está presente como elemento simbólico durante toda a narrativa, realizando o contato entre a vida e a morte.  Esses comportamentos já eram familiares para sua mãe, que contorna a situação cortando suas unhas e usando maquiagem de camuflagem, tratando Nina como uma criança que fez algo de errado, ao invés de um adulto que necessita de ajuda.

Lily é aquilo que Nina não é: uma bailarina sem técnica, mas excitante e visceral. É a personificação de sua sombra e acaba tendo um papel importantíssimo do ponto de vista psicológico para Nina. Através desse confronto, ela vê seus conteúdos projetados de sombra, o que faz com que ela entre em contato com sua sexualidade, agressividade, instintos primitivos como raiva, ciúme, inveja, tesão e até vontade de matar. Nina vai resgatando o contato com ela mesma, e se despojando de sua Persona de perfeitinha para ser aquilo que realmente é. Começa então a questionar a autoridade da mãe, a transgredir e crescer.

Na busca pela perfeição e na tentativa de provar a Thomas que é capaz de expor seu lado mais selvagem, Nina é conduzida de tal forma pelo papel que interpreta que começa a perder a capacidade de discernir e não consegue perceber os limites entre sonho (fantasia) e realidade. Tragada pela força do inconsciente, ela vai aos poucos se dissociando cada vez mais. Seu destino se sobrepõe ao enredo de “O Lago Dos Cisnes”. Seus aspectos sombrios lhe trazem força sem direcionamento, e seu animus, representado por Thomas, lhe impulsiona para tornar-se inteira.

Nina, precisa deixar escapar o controle, perder-se em seu labirinto de emoções assustadoras para ver-se Negra, como o Cisne que não sabia interpretar, para então tornar-se mulher, com verdade, coragem, marcas. É o encontro e integração com a Sombra. 

 Analisando o desenvolvimento libidinal (da sexualidade) de Nina, podemos dizer que depois de ter vivenciado a fase edípica de identificação com o sexo oposto com Thomas, ele desperta nela o autoerotismo, quando o interesse sexual volta-se para ela mesma, sua sensualidade primitiva. Depois desta fase narcísica, segue-se a fase homossexual que é integradora desse nível básico de desenvolvimento. Devido ao seu desequilíbrio interno, Nina interpreta isso como uma conspiração vinda do mundo externo e não consegue perceber que são projeções do seu mundo interno, que nesse momento não podia realizar a integração.

No filme, aparece a relação homossexual entre Nina e sua rival Lily, seu duplo auto-erótico,  como fantasias de uma cisão, mas que poderia também ser interpretada como devaneios.

 O filme apresenta o universo feminino em suas várias facetas, com a presença de vários arquétipos femininos: a mãe devoradora; a filha Perséfone, jovem e virgem, donzela; Lilith, a mulher sexuada e sedutora. 
Observa-se o trabalho com espelhos e sombras, insistindo na sensação de divisão, de um outro universo como um negativo de um filme. O espelho, aquele que reflete nos mostra quem somos e simboliza a coragem de se arriscar e assumir o outro lado da vida.

 Cisne Negro é um filme escuro, com a predominância de três cores básicas: o preto e o branco, representando as polaridades e o vermelho do sangue, símbolo do sacrifício da bailarina. 

Durante o primeiro ato, Nina erra e cai, sentindo-se envergonhada, humilhada e frustrada. Quando chega ao camarim ela em suas alucinações se confronta com Lilly encarnando o Cisne Negro, uma porção dela mesmo que toma vida. Esse é o ponto culminante do filme. Sentindo-se ameaçada ela avança sobre ela num desejo de morte e destruição. No momento em que pensa matá-la na verdade mata o Cisne Branco, ela própria: O Cisne Negro mata o Cisne Branco, e assume sua personalidade. A Sombra se apodera dela. Novamente a presença dos espelhos com o qual Nina se fere na altura do plexo solar, chacra que comanda as emoções É um momento de perfeita integração entre a Vida e a Morte.

De volta ao palco ela dança magistralmente, vai ser o Cisne Negro. Realidade e loucura se encontram por um breve momento. Ela é ovacionada, está em êxtase, levita... Sua execução é perfeita e ousada. Em seu delírio seu corpo vai se transformando, adquirindo asas no lugar de braços, penas, e finalmente ela é o Cisne Negro. Ao sair do palco beija Thomas, não mais como menina, mas como mulher apaixonada.

 No último ato, o Cisne Branco, como uma alma aprisionada, busca o seu príncipe para libertar-se, mas sua parte obscura, o Cisne Negro, acaba corrompendo o seu próprio salvador e não resta alternativa a não ser encontrar outra via de libertação: a morte. Aqui temos a pulsão de Vida, Eros e da Morte, Tânatos.

Quando o Cisne Branco sobe as escadas para se matar vemos um disco dourado ao fundo  que pode representar o símbolo do Self, arquétipo central da psique ou  Si-mesmo,  expressando o momento da transcendência e inteireza: “Eu senti...”

 A Morte pode ser vista aqui como símbolo de salvação, transformação e redenção.
 
O Cisne é um animal que simboliza a origem da vida e dos seres humanos, representa ora o elemento feminino fecundado ora o elemento masculino fecundador. A imagem do cisne é, portanto hermafrodita e pode ter duas manifestações, uma solar e masculina e outra lunar e feminina. Quando assume as duas facetas, a solar e a lunar, torna-se num ser mágico e misterioso, que representa a fusão das polaridades. 

Na antiga Grécia, o Cisne macho era o acompanhante permanente de Apolo, o deus da beleza, da música e da poesia, cujo carro celeste era puxado por cisnes. No mito de Leda, o cisne tem também uma simbologia masculina já que Zeus se transforma em cisne para perseguir Leda, que lhe foge transformada em ganso, simbolicamente semelhante ao cisne fêmea.

 No Oriente, o cisne é símbolo da música e da poesia, para além de representar a coragem, a nobreza, a prudência e a elegância e beleza. Na Índia, o cisne é montado pelo deus Brama, e simboliza a elevação espiritual. Na tradição celta, os espíritos do outro mundo regressam ao mundo dos vivos sob a forma de cisne. São os cisnes também os responsáveis por trazer as crianças ao mundo em muitas tradições. 


A Individuação é  a busca de ser  "aquilo que se é".
Torne-se quem você é..




Bibliografia:
.Jung, Carl Gustav: O Homem e seus Símbolos, Ed.Nova Fronteira
.Leloup, Jean-Yves: Caminhos da Realização, Ed. Vozes
.Maia, Prof.Herberto Edson Maia: O filme Cisne Negro: Uma Interpretação Psicológica
.Zweig, Connie e Abrams, Jeremiah: Ao Encontro da Sombra, Ed. Cultrix
.Connie Zweig e Steve Wolf: o Jogo das Sombras, Ed.Rocco
.Testa, Ana Luísa: Terapia em dia; O cisne Negro



Márcia Hita: Médica e Psicoterapeuta Junguiana 
                       Membro do Núcleo de Estudos Junguianos da Bahia
                       Membro do CIT: Colégio Internacional dos Terapeutas